Jornalismo público
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Jornalismo público
Jornalistas americanos tentam recuperar credibilidade pública propondo uma agenda editorial baseada no leitor comum e abrindo espaço para a discussão, mas enfrentam uma forte polêmica sobre uma possível perda de isenção
Carlos Castilho
A confiança dos leitores norte-americanos na imprensa escrita do seu país vem despencando de forma contínua desde os anos 80 até hoje, segundo o Yankelovich Monitor, um boletim publicado pela empresa de consultoria de Daniel Yankelovich, um dos grandes gurus das pesquisas de opinião pública dos Estados Unidos.
O índice de confiabilidade dos jornais do Tio Sam caiu de 51% em 1988 para 21% em 1995. O mesmo fenômeno afetou as revistas, que baixaram de 38% para 14% no mesmo período. O Yankelovich Monitor afirma também que a perda de credibilidade dos jornais foi tão intensa quanto a da televisão, em que o número de pessoas que confiam plenamente nos noticiários passou de 55% para 23% entre 1988 e 1995.
As causas para essa perda de confiança são várias e há muito tempo vêm sendo estudadas pelas cabeças mais brilhantes da imprensa norte-americana. Mas um grupo de jornalistas teve a sua atenção despertada para uma inquietante coincidência. A queda de credibilidade da imprensa acontece simultaneamente a uma baixa, também constante, na confiança dos eleitores em relação aos governantes.
O professor Robert Putnam, diretor do Centro de Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard, afirma que nos anos 50, "75% dos norte-americanos acreditavam que o governo agia corretamente a maior parte do tempo, enquanto hoje, apenas 19% acham a mesma coisa" (citação tirada do livro Making Democracy Work).
Ao investigar o paralelismo entre as crises de credibilidade na imprensa e nas instituições, várias instituições como o Harwood Group, de Bethesda, Maryland; a Kettering Foundation, de Dayton, Ohio; e o Times Mirror Center for the People and the Press chegaram à conclusão de que os leitores estavam se sentindo marginalizados e frustrados com a política nacional, mas mostravam um grande interesse nas questões locais.
Foi aí, por volta de 1990, que surgiu a expressão "jornalismo cívico", logo acompanhada por outras como "jornalismo de interesse público", ou ainda "jornalismo de contato com a comunidade". Apesar da falta de acordo sobre o rótulo, os adeptos da nova tendência estavam de acordo no essencial: os jornais devem retomar o contato com a comunidade, descobrindo o que os leitores querem e abrindo espaço para discussão dos temas de interesse público.
O movimento ganhou uma dimensão nacional quando o Pew Charitable Trust Fund criou, um centro para aprofundar as bases teóricas da proposta, estimular troca de idéias e desenvolver projetos concretos sobre jornalismo de interesse público. O Centro começou a financiar pesquisas de opinião entre leitores, tentando detectar sua agenda de preocupações, para estimular os jornais, principalmente os regionais, a elaborarem políticas editoriais baseadas nos resultados das pesquisas.
A proposta foi aceita por aproximadamente 20 jornais, rádios e emissoras de TV locais, que aproveitaram a apatia dos leitores às vésperas das eleições de 1992 para propor uma nova agenda jornalística, baseada nas questões levantadas pelos cidadãos comuns, em sua maioria profundamente decepcionados com a performance das autoridades eleitas e preocupados com problemas como segurança pública, desemprego, saúde, educação e aposentadorias.
O jornal The Virginian Pilot, por exemplo distribuiu a todos os candidatos a cargos regionais um formulário imitando um pedido de emprego no qual eles deveriam apresentar um currículo e dizer o que pretendiam fazer.
Depois convocou uma série de mesas-redondas entre candidatos e eleitores para discutir a agenda levantada entre os leitores a partir das pesquisas de opinião pública.
Procedimento semelhante foi adotado por jornais como o Orange County Register, St Petersburg Times e até por jornais maiores como o Boston Globe e o Seattle Times. Muitos deles procuraram acordos com emissoras de TV para aumentar o alcance e a participação popular.
A rápida multiplicação de iniciativas locais e a aceitação imediata geraram uma grande discussão entre jornalistas, porque a experiência do jornalismo de interesse público acabou tocando na questão da independência e isenção dos profissionais, um dos pontos mais sensíveis na ideologia da imprensa norte-americana. O debate pulou rapidamente para as páginas de opinião de grandes jornais, como o Los Angeles Times, The Washington Post e New York Times. Também acabou envolvendo respeitadíssimos centros de estudos da mídia como a Fundação Neuman, da Universidade Harvard, o Freedom Forum Media Studies Center e a famosa escola de jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.
A acusação principal contra o jornalismo cívico é a de que seus adeptos abandonaram a isenção e distância em relação aos processos políticos, principalmente o eleitoral, para adotar a postura de participantes, criando agenda e orientando a discussão. Jonathan Yardley, colunista do The Washington Post chegou a classificar a idéia como "insidiosa e irresponsável". O New York Times, em editorial, advertiu que o jornalismo de interesse público poderia "significar a morte da isenção e independência, os dois pilares da imprensa norte-americana."
O bate-boca entre jornalistas norte-americanos ganhou ares passionais durante as eleições legislativas de 1994 e as presidenciais do ano passado. O pomo da discórdia foi a decisão da maioria dos jornais envolvidos no projeto de jornalismo público de inverter a lógica tradicional em campanhas eleitorais nos Estados Unidos. Eles passaram a centrar sua cobertura eleitoral nos eleitores e não nos candidatos. O referencial básico passou a ser a agenda dos leitores e não a plataforma apresentada pelos interessados em concorrer a cargos públicos.
Jornais, como o Orange County Register junto com uma emissora local de televisão passaram a organizar reuniões comunitárias para questionar os candidatos desde a postos municipais até ao Congresso. Em Seattle, estado de Washington, o Seattle Times organizou debates, chamados de Conversa de Varanda, transmitidos ao vivo pela TV. E na Carolina do Norte, o Charlotte Observer, junto com seis outros jornais municipais, cinco emissoras de TV e três de rádio, criou um sistema pelo qual todos os candidatos que visitassem cidades da região para buscar votos teriam de, antes dos comícios, debater com um fórum formado por leitores, ouvintes e espectadores que preencheram um formulário distribuído previamente.
A experiência do Charlotte é a mais abrangente entre todas as postas em prática pelo jornalismo de interesse público. O projeto, que o jornal chama de "Sua escolha, seu voto" foi desenvolvido durante as três últimas eleições no distrito de Charlotte. Os resultados em termos de vendagem de jornais são excepcionais: a tiragem aumentou 46% e a audiência das emissoras envolvidas no projeto deu saltos de 70% durante debates ao vivo sobre assuntos locais.
Hoje, a poeira baixou na arena eleitoral e o debate se concentra em questões locais como violência, droga, educação e justiça. Usando o mesmo sistema de identificar o que os leitores querem antes de iniciar os debates, vários jornais regionais norte-americanos mudaram completamente a política editorial em relação às questões comunitárias. O San Jose Mercury , da Califórnia, por exemplo, passou a distribuir as cartas de leitores por todas as editorias, com o objetivo de vincular mais estreitamente os temas tratados aos leitores. O que os editores não esperavam foi a verdadeira avalanche de cartas, mostrando a vontade dos eleitores de opinar sobre quase tudo que sai publicado, especialmente quando se trata de lixo na rua, segurança pública e qualidade de vida.
Outra experiência original é a do The Spokesman Review, um jornal da cidade de Spoke, no estado de Washington, que eliminou a seção de editoriais e designou dois editores, chamados de "interativos" para ajudar leitores a colocarem suas opiniões em formato jornalístico. O Tallahasse Democrat pulou para a Internet. O jornal da capital do estado da Florida organiza fóruns conjuntos de leitores e membros da câmara de deputados, e depois coloca o teor dos debates na rede pública e gratuita de computadores, para as pessoas poderem seguir a discussão em casa. O número de interessados cresceu 200 vezes em três meses.
No ano passado, a revista Congressional Quarterly Researcher detectou cerca de 400 projetos de jornalismo de interesse público em desenvolvimento nos Estados Unidos, alguns com quatro anos de experiência. A grande imprensa norte-americana ainda torce o nariz para os chamados "jornalistas cívicos", mas o influente American Press Institute (API) - uma espécie de ANJ - reconheceu em abril, que os donos de jornais que aderiram à nova moda não têm queixas sobre queda de circulação, ao contrário do que acontece com os jornalões.
Jornalista free-lancer
castilho@matrix.com.br
Boletim Nº 15, Maio-Junho de 1997
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