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Questão de método
Imprensa insinua mas não investiga
suborno dos cartolas do futebol
 
A imprensa que gosta de denunciar, mas não de investigar as denúncias, ainda não acertou a mão nas notícias sobre supostas pressões dos cartolas do futebol contra jornalistas incômodos. Primeiro, acusou-se a Rede Bandeirantes de demitir o comentarista Juarez Soares por ordem da CBF. Soares foi para o SBT comentar os jogos da Copa do Brasil. Agora, notinhas e insinuações indicaram que o jornalista Juca Kfouri teve de sair da revista Placar, da qual era diretor, porque publicava reportagens contra os cartolas Ricardo Teixeira (CBF) e Eduardo José Farah (Federação Paulista). A Folha foi enfática: disse que apurou que Farah mandara uma carta à Editora Abril, que edita Placar, pedindo a cabeça de Kfouri. A razão: a Abril estaria negociando com os cartolas um contrato de transmissão de jogos de futebol pela sua TVA - televisão por assinatura - e teria de amenizar as críticas que Placar fazia aos dirigentes do esporte.
Quando usa a expressão “A Folha apurou” o jornal quer dizer, segundo o Manual da Redação, que está publicando um “Off” checado - Informação “off” cruzada com o outro lado ou com pelo menos duas outras fontes independentes”.
Farah escreveu para o jornal negando ter enviado a carta à Abril. E Kfouri, ao estrear uma coluna na Folha, informou (3/7) que desconhecia a correspondência, mas citou um fax de Farah à Globo, em 1990. . Com quem “do outro lado” ou com que fontes independentes a Folha confirmou a existência da carta? Desmentido por Farah, o jornal calou-se. Tão espantosa quanto a facilidade com que se citam cartas e documentos é a passividade da imprensa na cobertura de escândalos domésticos. O tráfico negocial das empresas jornalísticas não é notícia nem nos concorrentes. Uma empresa de comunicação que supostamente demite jornalistas como barganha num contrato comercial trai o jornalismo e mercadeja a notícia. Pena que isso não seja investigado e noticiado.
A suposta negociata desafia a Folha - único dos grandes jornais que não tem o rabo preso no setor de entretenimento, rádio ou TV - a produzir uma reportagem de investigação que esclareça se Ricardo Teixeira e Eduardo Farah subornam ou não empresas jornalísticas. Indícios não faltam.
     Boletim Nº 4, Julho de 1995
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