Enquanto palmilhava o caminho da decepção, matutei sobre o motivo de tão abominável cretinice. É que não existe naquela republiqueta de Tartufo lei que limite as indenizações decididas pela Justiça. Está ao alcance de qualquer, mesmo os de cor, os chicanos e os pobres em geral, os bêbados, os mendigos e os aluados, qualquer da plebe, meu bom Deus, processar um jornal e ganhar milhões. Não há freio nem medida. Um Joe Smith corre ao tribunal e brada: “Não gostei do que li neste pasquim. Quero dez milhões, agora”. “Paguem-se-lhe dez milhões, já”, gritam os jurados. Os júris populares, os juízes, a Suprema Corte, têm poder autocrático de revogar, com uma canetada, a famosa primeira emenda à Constituição, que garante a liberdade de imprensa.
E que dizer de denúncias de abusos de empresas, como uma tal de Microsoft? Silêncio. Quando uma personalidade é presa por não ter pago o imposto de renda, os jornais publicam receitas de bolo no lugar da notícia. E tudo porque temem os processos. Os jornalistas ianques usam óculos cor-de-rosa: só enxergam o bem. Nenhum jornal, rádio, TV ou revista tem uma seção para vigiar os ricos e famosos. Pudera! Um jornal reescreveu a biografia de um caubói, o Sr. Eastwood, atribuindo-lhe fantásticos feitos que só lhe engrandeciam o mito, e eis que o homem, ingrato, purista, literal, falou com o juiz e ganhou US$ 1 milhão. Agora mesmo, a imprensa faz fila para pedir perdão ao Sr. Jewell, acusado pelo FBI -- que fonte poderia ser mais confiável? -- de jogar uma bomba nas Olimpíadas de Atlanta. Uma TV já pagou meio milhão. A revista Time pediu desculpas!... Ora, a imprensa penitenciar-se com um malfeitor é como o Sr. Churchil desculpar-se com o Sr. Hitler pelo bombardeio de Berlim.
À tanta perseguição, a pena doura-se. Durante minha estada, vi páginas e páginas sobre a fidelidade conjugal do presidente Clinton. Certa vez, no Clube da Imprensa, a que fui levado por um colega porto-riquenho, perguntei, curioso sobre uma negociata imobiliária, o que era Whitewater. Fez-se um silêncio de igreja, e o Sr. Cronkite, que me disseram ser um locutor aposentado, despistou-me, batendo-me palmadinhas nas costas: “É uma água mineral do Arkansas”. Machado lá seria rei, com seu extraordinário poder de abstração.
Medíocres de caráter, afundados na covardia moral, os jornalistas do Norte apequenam-se ante a valentia da nossa imprensa, que tudo divulga, abala os poderosos e senta a pua nos infames que estupram criancinhas nas escolas. Fiquei enervado de orgulho ao lembrar-me do poder dos nossos jornalistas: as próprias pedras do cais tornam-se macias a seus pés. Pensava num alvitre a tomar. Ao meu jeito, quis ser um Rosseau, pregando-lhes um ideal de vigor, de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse a bondade e a doçura deprimente. Pensei bradar: “Reajam! Lembrem-se do Álamo”, mas pressenti inútil meu desassombro. Eles acham o jugo natural. A coisa pega como certa. Cordeiros do látego, os donos das gazetas e os redatores ianques não pressionam o Congresso a fazer uma lei que tabele as calúnias, as injúrias, as difamações. Submetem-se aos processos como as ovelhas ao pastor. Olhei com desprezo aquela parva gente.
Na Bruzundanga reina, ímpar no mundo, a liberdade de expressão. A cada um segundo seu direito. A cada direito segundo seu poder. Esses abutres da Escola Base deveriam mudar-se para lá, se querem ganhar dinheiro fácil às custas da liberdade de imprensa. Com a ousadia dos néscios, três deles entraram com um processo de reparação de danos contra o governo de São Paulo. Receberam mais do que mereciam: R$ 12 mil, mas mantenho minhas dúvidas, porquanto, se ninguém provou que são culpados, eles não provaram que são inocentes.
A Bruzundanga é o farol da liberdade. Nações carcomidas, façam fila para aprender conosco o ABC da Democracia. Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Suécia, na sua indigência democrática, nada têm de parecido à nossa atual Lei de Imprensa. É o maior estatuto da liberdade desde que a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A lei é obra do estadista Castello Branco, cujo governo engrandeceu a humanidade com os atos institucionais, a correção monetária e o cachecol invisível.
A lei deste titã da liberdade protege-nos da rapinagem: limita as indenizações a 200 salários. E não é que, agora, o Congresso Nacional, que eu julgava uma casa de semideuses, de Manus, de Sólons, de Licurgos, degrada-se, vingativamente, escrevendo leis como os sicilianos redigem certidões de óbito, e deseja outorgar-nos uma carta legal da imprensa sem um teto fixo para as indenizações, e assim agindo vai deixar-nos vulneráveis, como nossos desgraçados colegas americanos, canadenses, suecos, alemães, ingleses e franceses, sem falar dos javaneses, naturalmente.
Se os Estados Unidos tivessem um diploma legal como o nosso, o grande diário The Wall Street Journal jamais seria condenado por um júri popular (que audácia o povo julgar a imprensa!) a pagar US$ 222 milhões a uma firma arruinada por um suelto do jornal. O processo tramitou ao feitio truculento da terra de Marlboro, tanto que o juiz reduziu o montante para US$ 22 milhões. Vinte e dois milhões de dólares! Que inépcia estonteadora! Isto é lucro de ano de um dos nossos grandes matutinos.
A minha conclusão, a pensar sossegadamente, é que o Grêmio Beneficente dos Proprietários de Gazetas deveria considerar o Marechal Castelo Branco como o Patrono da Imprensa. É a lei dele, agora ameaçada pelo Congresso, que faz da Bruzundanga a única potência democrática do mundo.
Aqui me despeço, desejando a paga em parati, e, na tradição de meu tetravô Pero Vaz, rogando-lhes uma colocação para um moço de boa pena. Seu nome é Afonso Henriques; apesar de variar, perora coisas sensatas. Ele aceita ser registrado numa repartição pública para servir a um dos nossos jornais independentes, se bem que, ouvi dizer, no reinado de Dom Fernando dá-se o contrário, contratando as gazetas redatores que louvaminham como se ao rei servissem. Bem no fundo, isso é nervo, não acha?
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