O triste fim da <br>imprensa americana
Ficção

O triste fim da
imprensa americana

Anotações do nosso enviado especial mostram que os jornais
acovardaram-se na censura, porque o Congresso
ianque não aprova um teto para as indenizações


ISAÍAS CAMINHA




Dos jornais, sobre o projeto da nova lei de imprensa, bombardeado porque não fixa um limite para as indenizações decididas pela Justiça:
A ameaça da censura disfarçada
Estadão, 10/8
Lei da trava
JB, 31/10
SIP vai fazer campanha contra proposta que põe em risco liberdade de expressão
Globo, 25/10
SIP considera ditatorial a nova Lei de Imprensa
JB, 20/10
Além de reforçar a “indústria da indenização”, (...) poderá levar, até mesmo, ao fechamento de empresas jornalísticas que sejam vítimas de sentenças irreais.
Do Manifesto à Nação, divulgado pela ANJ, Aner e Abert e ABI


Encarregado que fui de visitar os Estados Unidos da América e fazer um relatório sobre a sua democracia, desempenho-me da incumbência a mim confiada pelo Grêmio Beneficente dos Proprietários de Gazetas da Bruzundanga. O que tenho a noticiar vai deixá-los horripilados. Ao contrário do que diz a propaganda capitalista (viva o maximalismo!), os Estados Unidos não são uma democracia. A imprensa local está sob censura. A mim surpreendeu-me saber que The New York Times, a revista Time, a televisão ABC fenecem na autocensura. Os jornalistas, graves homens de fisionomia triste, curvados pelo peso da opressão, prostram-se nas sombras, a sussurrar casos que jamais serão publicados. A perseguição espezinha que dia desses um redator do Miami Herald, o Sr. Kidwell, passou 70 dias no xilindró porque recusou-se a testemunhar num tribunal sobre um assassino que entrevistara. Oh, céus, país que prende jornalista é um sultanato turco. Comparada a tanta tirania, a Roma de Calígula é a ágora grega. Meu irmão de letras Policarpo Quaresma, que me ajudou com estas anotações, quis ir-se mal chegou. Instado, ficou, mas, tomado de energia nervosa, rasgou em pedaços um quadro onde mandara imprimir, em tupi castiço, aquela frase de Thomas Jefferson sobre a primazia dos jornais. Houve em mim, por esta ocasião, uma indizível tristeza sem limites.

Enquanto palmilhava o caminho da decepção, matutei sobre o motivo de tão abominável cretinice. É que não existe naquela republiqueta de Tartufo lei que limite as indenizações decididas pela Justiça. Está ao alcance de qualquer, mesmo os de cor, os chicanos e os pobres em geral, os bêbados, os mendigos e os aluados, qualquer da plebe, meu bom Deus, processar um jornal e ganhar milhões. Não há freio nem medida. Um Joe Smith corre ao tribunal e brada: “Não gostei do que li neste pasquim. Quero dez milhões, agora”. “Paguem-se-lhe dez milhões, já”, gritam os jurados. Os júris populares, os juízes, a Suprema Corte, têm poder autocrático de revogar, com uma canetada, a famosa primeira emenda à Constituição, que garante a liberdade de imprensa.



Soube que dois redatores do Washington Post farejaram um problema no telefone do edifício Watergate, mas a proprietária da gazeta, a Sra. Graham, engavetou a crônica e foi jogar gamão no Clube Naciona
A inexistência de um teto para as indenizações nos Estados Unidos da América impôs uma autocensura tão silente que os jornais, sem reportagens, parecem um filme sem imagens ou um romance sem personagens. Grandes escândalos somem como a Taça Jules Rimet. Contou-me um amanuense que, anos atrás, a imprensa teve medo de publicar uns tais Documentos do Pentágono. Soube, também, que dois redatores do Washington Post farejaram um problema no telefone do edifício Watergate, mas a proprietária da gazeta, a Sra. Graham, engavetou a crônica e foi jogar gamão no Clube Nacional. Diz-se, à socapa, que havia uma linha cruzada com a Casa Branca, mas o Sr. Nixon nem deu bola e terminou o mandato aclamado pela imprensa.

E que dizer de denúncias de abusos de empresas, como uma tal de Microsoft? Silêncio. Quando uma personalidade é presa por não ter pago o imposto de renda, os jornais publicam receitas de bolo no lugar da notícia. E tudo porque temem os processos. Os jornalistas ianques usam óculos cor-de-rosa: só enxergam o bem. Nenhum jornal, rádio, TV ou revista tem uma seção para vigiar os ricos e famosos. Pudera! Um jornal reescreveu a biografia de um caubói, o Sr. Eastwood, atribuindo-lhe fantásticos feitos que só lhe engrandeciam o mito, e eis que o homem, ingrato, purista, literal, falou com o juiz e ganhou US$ 1 milhão. Agora mesmo, a imprensa faz fila para pedir perdão ao Sr. Jewell, acusado pelo FBI -- que fonte poderia ser mais confiável? -- de jogar uma bomba nas Olimpíadas de Atlanta. Uma TV já pagou meio milhão. A revista Time pediu desculpas!... Ora, a imprensa penitenciar-se com um malfeitor é como o Sr. Churchil desculpar-se com o Sr. Hitler pelo bombardeio de Berlim.

À tanta perseguição, a pena doura-se. Durante minha estada, vi páginas e páginas sobre a fidelidade conjugal do presidente Clinton. Certa vez, no Clube da Imprensa, a que fui levado por um colega porto-riquenho, perguntei, curioso sobre uma negociata imobiliária, o que era Whitewater. Fez-se um silêncio de igreja, e o Sr. Cronkite, que me disseram ser um locutor aposentado, despistou-me, batendo-me palmadinhas nas costas: “É uma água mineral do Arkansas”. Machado lá seria rei, com seu extraordinário poder de abstração.

Medíocres de caráter, afundados na covardia moral, os jornalistas do Norte apequenam-se ante a valentia da nossa imprensa, que tudo divulga, abala os poderosos e senta a pua nos infames que estupram criancinhas nas escolas. Fiquei enervado de orgulho ao lembrar-me do poder dos nossos jornalistas: as próprias pedras do cais tornam-se macias a seus pés. Pensava num alvitre a tomar. Ao meu jeito, quis ser um Rosseau, pregando-lhes um ideal de vigor, de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse a bondade e a doçura deprimente. Pensei bradar: “Reajam! Lembrem-se do Álamo”, mas pressenti inútil meu desassombro. Eles acham o jugo natural. A coisa pega como certa. Cordeiros do látego, os donos das gazetas e os redatores ianques não pressionam o Congresso a fazer uma lei que tabele as calúnias, as injúrias, as difamações. Submetem-se aos processos como as ovelhas ao pastor. Olhei com desprezo aquela parva gente.

Esses abutres da Escola Base querem ganhar dinheiro fácil às custas da liberdade de imprensa

Na Bruzundanga reina, ímpar no mundo, a liberdade de expressão. A cada um segundo seu direito. A cada direito segundo seu poder. Esses abutres da Escola Base deveriam mudar-se para lá, se querem ganhar dinheiro fácil às custas da liberdade de imprensa. Com a ousadia dos néscios, três deles entraram com um processo de reparação de danos contra o governo de São Paulo. Receberam mais do que mereciam: R$ 12 mil, mas mantenho minhas dúvidas, porquanto, se ninguém provou que são culpados, eles não provaram que são inocentes.

A Bruzundanga é o farol da liberdade. Nações carcomidas, façam fila para aprender conosco o ABC da Democracia. Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Suécia, na sua indigência democrática, nada têm de parecido à nossa atual Lei de Imprensa. É o maior estatuto da liberdade desde que a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A lei é obra do estadista Castello Branco, cujo governo engrandeceu a humanidade com os atos institucionais, a correção monetária e o cachecol invisível.

A lei deste titã da liberdade protege-nos da rapinagem: limita as indenizações a 200 salários. E não é que, agora, o Congresso Nacional, que eu julgava uma casa de semideuses, de Manus, de Sólons, de Licurgos, degrada-se, vingativamente, escrevendo leis como os sicilianos redigem certidões de óbito, e deseja outorgar-nos uma carta legal da imprensa sem um teto fixo para as indenizações, e assim agindo vai deixar-nos vulneráveis, como nossos desgraçados colegas americanos, canadenses, suecos, alemães, ingleses e franceses, sem falar dos javaneses, naturalmente.

Se os Estados Unidos tivessem um diploma legal como o nosso, o grande diário The Wall Street Journal jamais seria condenado por um júri popular (que audácia o povo julgar a imprensa!) a pagar US$ 222 milhões a uma firma arruinada por um suelto do jornal. O processo tramitou ao feitio truculento da terra de Marlboro, tanto que o juiz reduziu o montante para US$ 22 milhões. Vinte e dois milhões de dólares! Que inépcia estonteadora! Isto é lucro de ano de um dos nossos grandes matutinos.

A minha conclusão, a pensar sossegadamente, é que o Grêmio Beneficente dos Proprietários de Gazetas deveria considerar o Marechal Castelo Branco como o Patrono da Imprensa. É a lei dele, agora ameaçada pelo Congresso, que faz da Bruzundanga a única potência democrática do mundo.

Aqui me despeço, desejando a paga em parati, e, na tradição de meu tetravô Pero Vaz, rogando-lhes uma colocação para um moço de boa pena. Seu nome é Afonso Henriques; apesar de variar, perora coisas sensatas. Ele aceita ser registrado numa repartição pública para servir a um dos nossos jornais independentes, se bem que, ouvi dizer, no reinado de Dom Fernando dá-se o contrário, contratando as gazetas redatores que louvaminham como se ao rei servissem.
Bem no fundo, isso é nervo, não acha?


Nosso escrivão viajou a Miami no vapor “Quarto e Sala Poder” e foi gentilmente hospedado pelo hotel Advantage Press, na rua Free Mouth


“As conversas na redação tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia ministros, demitia diretores, julgava juízes, e o presidente, logo ao amanhecer, lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o placet desejado do doutor Ricardo. Participar de uma redação de jornal era algo extraordinário, superior, acima das forças comuns dos mortais”.
Trecho do romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, em que Afonso Henriques de Lima Barreto descreve a imprensa brasileira no começo do século. O personagem Roberto Loberant representa Edmundo Bitencourt, do extinto Correio da Manhã


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