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O que imprensa aprendeu na Escola Base?
O livro Caso Escola Base Os Abusos da Imprensa, de Alex Ribeiro (Editora Ática, tel 011/278 9322) é provavelmente o primeiro de uma série de estudos sobre estaca que a imprensa brasileira fincou no coração do jornalismo. A imprensa penitenciou-se, genericamente, mas a autocrítica jornalística ainda não foi feita porque confronta uma dolorosa questão de método: a cumplicidade entre um aparelho policial ineficiente e uma imprensa que ouve e publica. Feita a denúncia, um delegado afoito resolveu o caso em cinco minutos e abasteceu a imprensa com conclusões que mesmo a fantasia de Sherlock Holmes levaria semanas para apurar.
É rotina: crimes complexos, intrincados, embalados por paixões e mistérios, são desvendados instantaneamente para jornalistas a quem não ocorre perguntar: “Como o senhor descobriu tudo isso em tão pouco tempo?” Se perguntarem, perdem a notícia.
Guardadas as proporções, o método — da polícia e da imprensa — repetiu-se em outubro no caso da carta-bomba do Itamaraty: minutos depois da explosão estava na praça o nome do terrorista, Jorge Mirandola. Foi preso, solto, e as investigações ainda não revelaram quem postou a bomba. A diferença é que Mirandola não reclamou de seus quinze minutos de horror na polícia e na mídia. Do livro de Ribeiro, reproduzimos trecho do capítulo Mea-culpa, que repassa a autocrítica fugaz da Folha e aponta para o futuro: o que a imprensa aprendeu com seu erro no caso?
A empresa Folha da Manhã promoveu, em dezembro de 1994, um seminário para discutir o episódio. Os principais resultados foram publicados. Note-se que, seis meses depois do arquivamento do inquérito, já se vêem com condescendência os erros da imprensa. O ombudsman Marcelo Leite considerou que o jornal não cometeu nenhum absurdo formal, como títulos ou textos que aceitassem plenamente as acusações. Ele reconhece, no entanto, que os suspeitos terminaram prejudicados com a repercussão na imprensa. O editor de Opinião, Hélio Schwartsman, afirmou que a obediência ao manual de redação contribuiu para o jornal não cometer um grande vexame. A Folha não assumiu, segundo ele, todas as informações, atribuindo-as explicitamente a quem as forneceu. O consultor jurídico da empresa, Luis Francisco de Carvalho Filho, assinalou que as reportagens publicadas relatam o que está exposto no inquérito.
Esses três debatedores reconhecem, por outro lado, que os jornalistas não foram capazes de identificar contradições da investigação policial, como o laudo do IML e a validade limitada do depoimento de crianças de quatro anos.
Uma semana depois, em 19 de dezembro, a Folha de S. Paulo publicou um editorial cujo tema era o seminário. “Esta Folha sempre tratou os envolvidos como acusados ou suspeitos, evitando toda espécie de prejulgamento”, escreveu o editorialista. “E se esses cuidados evitaram um vexame maior, eles não foram suficientes para preservar a imagem dos envolvidos.”
É inegável o mérito da Folha da Manhã em promover o seminário. Denota o reconhecimento de que o caso exige reflexão. Mas, em alguns momentos, os resultados publicados são, no mínimo, parciais. Não é verdade, por exemplo, que os jornais da empresa só publicaram informações de fontes oficiais. Houve uma determinada altura em que toda a imprensa estabeleceu uma linha direta com as mães acusadoras. Tudo o que elas denunciaram passou a ser publicado antes mesmo do registro no inquérito policial - como a denúncia do casal Isber, o suposto uso de tóxico e a acusação de contaminação com o vírus HIV. Pior: a denúncia de Sheila e Abraão nunca se confirmou no inquérito policial.
A Folha da Tarde assumiu, sim, suposições como verdadeiras, na primeira página: “Perua escolar carregava crianças para a orgia”. Além disso, a Empresa Folha da Manhã deixou de incluir no seminário um dos jornais do grupo — o Notícias Populares, que fez, disparado, a mais pejorativa de todas as coberturas. Na primeira página, estampou: “Kombi era motel na escolinha do sexo.” Editores, redatores e repórteres agiram de uma maneira que pode ser qualificada como irresponsável. No alto da página 5, estampou: “Perua escolar levava crianças para orgia no maternal do sexo”. A matéria, sem crédito, merece ser lembrada como exemplo do antijornalismo.
     Boletim Nº 6 Novembro-Dezembro de 1995
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