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Há muito o que aprender com o modelo americano Biblioteca
Há muito o que aprender com o modelo americano
O adiantado da hora ou o atraso do jornalismo brasileiro
Publicado em 1991, pela Summus Editorial (011-872 3322), o livro O Adiantado da Hora - A influência americana sobre o jornalismo brasileiro, de Carlos Eduardo Lins da Silva, é um excelente estudo sobre uma aculturação bem inspirada e mal resolvida. A imprensa do Brasil adotou a dos Estados Unidos como modelo, mas, se em qualquer processo cultural nenhuma transferência se dá integralmente, nesse caso a técnica, o zelo, a investigação que caracterizam o jornalismo americano ainda precisam ser transplantados para o brasileiro. Do livro extraímos trechos do excelente capítulo Questões Éticas:


“...enquanto nos EUA a constatação do descontentamento e da queda do nível de credibilidade resultou em uma intensa discussão sobre os padrões de desempenho dos jornais, tanto no que se refere a problemas éticos quanto técnicos, no Brasil o exercício da autocrítica ainda é escasso, modesto, ocasional. A arrogância continua a ser o traço dominante do comportamento do jornalista e do jornal. Há um grande vazio de reflexões sobre a atuação da imprensa.
Nos EUA, essas reflexões são feitas em pelo menos três campos. O primeiro é o das publicações especializadas em media criticism ou em estudos científicos específicos sobre o jornalismo ( Columbia Journalism Review, Washington Journalism Review, Journalism Quarterly, Gannet Center Journal, Public Opinion Quarterly, Journal of Comunication, The Bulletin of The American Society of Newspaper Editors, Newspaper Research Journal, American National Press Association News Research Report, News Research for Better Newspapers são as dez mais conhecidas). Pelo menos dez publicações periódicas provocam um grande estímulo para a produção de pesquisas e análises sobre a imprensa, muitas das quais nos últimos anos sobre problemas éticos. Enquanto isso, no Brasil, apesar de algumas tentativas anteriores (Cadernos de Jornalismo do Jornal do Brasil, Cadernos de Comunicação Proal, Crítica da Informação, Cadernos de Jornalismo da Tribuna de Santos, entre outras), hoje em dia só poucas resistem .(Revista Brasileira de Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, há mais tempo, Imprensa ainda em fase de consolidação), com reduzida circulação e pouco alcance fora do circuito universitário.
O segundo campo é o das próprias empresas jornalísticas que, ou individualmente, ou em organizações da categoria, patrocinam o exercício da autocrítica. Ainda é pequeno nos EUA o número de jornais diários (menos de 40) que mantêm o ombudsman, ou seja, um profissional pago apenas para servir como canal das reclamações do leitor contra o jornal que, quase sempre, escreve uma coluna semanal com suas mais importantes conclusões a respeito do jornal num determinado período de tempo. No Brasil, essa função só existe em um jornal. Embora os resultados obtidos pelos ombudsmen nos EUA sejam ambíguos, não há dúvida de que entre eles deve ser computada a influência que esses profissionais exercem sobre outros jornais que não mantêm função similar. Por exemplo, The New York Times não conta com um ombudsman. Mas o fato de que um dos seus principais rivais (The Washington Post) trabalha com o sistema (mais a pressão do público) fez com que o espaço para a autocrítica fosse aumentado no jornal até chegar a seção “Corrections”, publicada diariamente na nobre terceira página do Times.
No Brasil, só a Folha de S. Paulo tem o hábito de publicar regularmente “Erramos”, embora ocasionalmente outros jornais também o façam. O jornal O Estado de S. Paulo, que até 1988 nunca se corrigia, tem publicado correções desde então. As associações nacionais de jornais ou editores, além de publicarem seus journals, patrocinam caras pesquisas específicas sobre os problemas da relação entre a indústria e o seu leitorado e os divulgam com regularidade. No Brasil, instituições similares não têm muito o que exibir nessa área. O terceiro campo de reflexões sobre a prática jornalística é compreendido pela produção de livros através das universidades ou não. Dezenas de títulos por ano são lançados na área nos EUA. No Brasil, a escassez de trabalhos sobre esses temas é indiscutível.
Além das deficiências estruturais e da pobreza das instituições, outros motivos ajudam a explicar a relativa ausência de discussões sobre ética na imprensa brasileira. Durante o regime militar, por exemplo, a maioria dos jornalistas se colocou em posição de rechaçar observações críticas sobre seu desempenho sob a alegação de que tal tipo de comentários facilitaria a tarefa dos censores e da repressão. Durante quase 20 anos, crítica a jornalistas foi tacitamente considerada um ato a se evitar em nome da liberdade.
O retorno dos civis ao poder encontrou uma geração jornalística arrogante. Um fortíssimo esprit-de-corps age com grande eficiência para evitar que críticas sejam feitas ao comportamento jornalístico. Panelinhas e grupos de amigos trabalham para que elogios sejam sistematicamente feitos a seus integrantes. Os traços culturais das redes de relações pessoais que orientam a vida social, e da importância exagerada que se dá a palavra impressa no país, também são fatores que contribuem para o entendimento das causas da diferença de comportamento entre brasileiros e americanos nesse campo da crítica.
Outra possível explicação é de que o jornalista americano sabe que ele e a instituição que ele representa gozam de prestígio e poder de fato na sociedade em que vivem. Talvez por isso, se sintam seguros em relação às críticas. No Brasil, ao contrário, o profissional e a maioria dos veículos, embora percebidos como poderosos e influentes pela população, sabem como é limitado seu campo de ação real. Por isso, as críticas os fazem sentir-se tão ameaçados. A insegurança, em qualquer situação, pode levar o indivíduo à arrogância. Além disso, há todo o passado cultural diferente dos dois povos com relação à crítica. No geral, o americano recebe a crítica como uma contribuição; o brasileiro, como ofensa pessoal e indicação de inimizade.”

     Boletim Nº 5 Agosto-Outubro de 1995
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