Todos os homens do presidente, o livro, é obra indispensável numa biblioteca de Jornalismo. Ao comemorar-se o 25º ano de Watergate, destacamos um pequeno trecho deste best-seller escrito por Woodstein, isto é, a dupla Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do jornal americano The Washington Post que detonaram o presidente Richard Nixon. A edição brasileira é da Francisco Alves. O trecho mostra como os dois jornalistas conseguiram harmonizar-se para escrever tanto e durante tanto tempo num ambiente altamente competitivo:
"...o relacionamento entre Bernstein e Woodward primava pelo espírito
de competição. Cada um temia que o outro ficasse sozinho com o resto da história. Se um saía atrás de uma dica, fosse de noite ou num fim de semana, o outro se sentia compelido a fazer o mesmo. A reportagem de 1°. de agosto era assinada por ambos; no dia seguinte, Woodward perguntou a Sussman se o nome de Bernstein podia constar da sua série de reportagens (sobre as investigações da auditoria), embora Bernstein ainda se encontrasse em Miami e não houvesse trabalhado na matéria. Desse dia em diante, qualquer reportagem sobre o caso Watergate teria sempre a assinatura dos dois. Os colegas da redação amalgamaram os nomes e de brincadeira batizaram de dupla "Woodstein".
Gradualmente, as suspeitas e desconfianças mútuas foram desaparecendo. Eles entenderam todas as vantagens de um trabalho em conjunto, principalmente por serem de temperamentos tão diversos. A amplitude da matéria, os riscos que implicava e a necessidade de cautela exigiam a dedicação de - pelo menos - dois repórteres. Dividindo o trabalho e somando as informações, eles ampliaram os seus contatos.
Cada um conservava sua própria lista de telefones importantes. Todos os números eram chamados pelo menos duas vezes por semana (o simples fato de uma determinada fonte não atender ao telefone, ou deixar de chamar mais tarde, freqüentemente era sinal de algum fato importante).
A soma do total de nomes constantes das listas chegou, em certas ocasiões, a várias centenas, embora menos de cinqüenta fossem duplicatas. Inevitavelmente, às vezes os seus caminhos se cruzavam. - Mas vocês não trabalhavam juntos? - perguntou, certa vez, um advogado a Woodward. - Acabei de falar com Carl, neste instante. - Em outra ocasião, disse um assessor da Casa Branca: - Estamos tentando descobrir por que razão uns de nós recebem telefonemas de Bernstein e outros parecem fazer parte da lista de Woodward.
Não havia motivo especial. Cada um dos dois simplesmente procurava evitar, ao máximo, atrapalhar o desempenho do outro. Preferiam, em geral, manter seus contatos separadamente, porque assim os informantes confidenciais sentir-se-iam mais à vontade, e sobrava mais tempo para fortalecerem seu inter-relacionamento pessoal.
Para aqueles que se sentavam mais perto deles na sala de reportagens, era evidente que nem sempre "Woodstein" funcionava como uma bem lubrificada máquina jornalística. Muitas vezes os dois discutiam abertamente. Havia ocasiões em que guerreavam durante quinze minutos por causa de uma palavra ou da construção de uma frase. As nuances eram de capital importância: a ênfase devia ser dada na medida justa. A busca do termo jornalístico apropriado se processava freqüentemente a todo vapor, e não era raro ver um afastar-se de cara fechada da mesa do outro. Mais cedo ou mais tarde (quase sempre mais tarde), no entanto, a história acabava por tomar a forma conveniente."
Boletim Nº 15, Maio-Junho de 1997
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