Repórteres que não comem queijo Biblioteca

Repórteres que não comem queijo

Livro reúne 54 reportagens que honram o jornalismo

A arte da reportagem, volume I, organizado por Igor Fuser, reúne alguns dos melhores momentos do jornalismo. São 54 reportagens escritas por jornalistas que permaneceram na carreira ou dela fizeram um trampolim para a literatura, como os escritores Charles Dickens, Jack London e Carlos Fuentes. De trabalhos de grandes repórteres brasileiros o livro destaca reportagens de Euclides da Cunha, Carlos Azevedo, Caco Barcelos, José Hamilton Ribeiro e outros. Editado pela Scritta (011/532-1833), é livro indispensável numa biblioteca de jornalismo. Transcrevemos trechos da apresentação escrita por Fuser:

As reportagens reunidas neste livro mos-tram como o jornalismo pode ser algo diferente do Bic Mac diário da imprensa tecnoburocratizada. São textos de estilos variados, produzidos em épocas e países diferentes. Alguns deles marcaram épocas, viraram verdadeiros clássicos. Outros trabalhos aqui incluídos não ganharam prêmios nem fizeram história, mas — exemplos de jornalismo honesto, competente e criativo — ajudam a compor um painel das imensas possibilidades da reportagem. Há um pouco de tudo: da ironia fina de Joel Silveira descrevendo as bodas da herdeira dos Matarazzo nos anos 40 ao relato comovente de Dorrit Harazim sobre as mulheres presidiárias no Rio de Janeiro atual. Em comum, os autores incluídos nesta coletânea têm poucas coisas, além daquilo que a professora de jornalismo Cremilda Medina chama de comunhão com o presente - o desejo de compartilhar com os demais, por meio da narrativa, o destino de um pedaço específico da humanidade, gente de carne e osso. É isso o que faz os repórteres.
Este livro não é uma história da reportagem nem uma lista do tipo "as dez mais". Não é, tampouco, um inventário das diferentes escolas de jornalismo. Deixo aos teóricos de comunicação o debate sobre a fronteira entre literatura e reportagem.
Já se disse que, por trás da suposta objetividade jornalística, esconde-se a mais pura subjetividade dos donos e editores de veículos. Uma subjetividade que não se manifesta necessariamente pela deformação intencional dos fatos, mas por ênfases e omissões (...) Nesta seleção usei como base a idéia da reportagem como gênero jornalístico que, dentre todos, mais dá espaço aos oprimidos. Uma entrevista do tipo pingue-pongue privilegia, quase sempre, as celebridades, os poderosos, os nomes consagrados. A reportagem, embora também contemple os grandalhões, é por excelência o lugar dos humildes, dos anônimos, dos que só aparecem no jornal uma vez na vida.
Este é um livro para jornalistas, para pessoas interessadas em jornalismo e para os que se interessam por assuntos de que trata o jornalismo — ou seja, por tudo. Os estudantes de comunicação, especialmente, têm muito a ganhar com a leitura desta seleção de textos de grandes repórteres. Só não recomendo esta coletânea aos que pretendem ficar ricos e/ou famosos com o jornalismo. Para esses, há investimentos mais úteis. Em minha experiência profissional, notei que as redações funcionam um pouco como aquela famosa experiência de psicologia inventada por Pavlov, a dos reflexos condicionados. Coloca-se um ratinho numa caixa com um fio elétrico numa das extremidades e, na outra, um pedaço de queijo. Se ele correr para um lado, recebe um choque. Se correr para o outro, come o queijinho. Depois de retirados o fio e o queijo, o rato — já condicionado — continua a correr para a mesma ponta da caixa. Não se demora muito a descobrir, na prática do jornalismo, onde se leva choque e onde se come queijo. Um bom ratinho de Pavlov jamais imitaria o exemplo dos repórteres incluídos neste livro.

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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