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O embate do criador com a criatura

 O livro Imprensa e poder Ligações perigosas, de Emiliano José (Edufab/Hucitec, tel 011/530 4532 ), é uma das primeiras análises da atuação da imprensa na deposição do presidente Fernando Collor. É leitura obrigatória, pelos questionamentos das relações umbilicais entre a mídia e o poder. Publicamos trechos do capítulo "O homem errado":
Está claro que se considera simplificadora a idéia de que a imprensa, quase que por sua conta e risco, decidiu o impeachment. Mas, talvez, ainda seja necessário esclarecer por que ela, depois de um prolongado, pacífico e conivente relacionamento com Collor, decide romper com ele. E não parece haver uma única causa a explicar tal rompimento. A imprensa apóia Collor como um projeto, uma alternativa do poder que poderia levar à prática um novo modelo de acumulação capitalista, de matriz neoliberal, com o qual ela sonhava há muito tempo. Foi uma aposta política, fundada em interesses muito claros (...).
Reafirmar isso é importante para desnudar a noção de um jornalismo apartidário, tão difundido e tão desrespeitado. A imprensa não pode ser colocada à margem da luta pela hegemonia na sociedade, e nessa luta ela está de um lado, não é o das classes subalternas. Claro que a imprensa reflete a existência de todas as classes sociais, expressa as contradições existentes entre elas. Mas, de modo geral, tem uma opção, que se torna mais clara ainda nos momentos decisivos da história, como foi aquele da sucessão presidencial em 1989 (...).
Não se dê como tranqüilo que foi a imprensa que elegeu Collor. Como se viu, uma sucessão de fatores se conjugaram e criaram condições para que ele se tornasse presidente. Mas a imprensa, inegavelmente, contribuiu de modo decisivo para assegurar a vitória dele. Não apenas registrando acontecimentos, mas intervindo na conjuntura, revelando-se, na sua especificidade, um ator político de peso. Intervém como coadjuvante de um processo em curso, mas intervém.
Se a fase do apoio é relativamente fácil de ser analisada, o mesmo não pode ser dito quanto tentamos esclarecer as razões pelas quais a imprensa rompe com o ex-caçador de marajás. É verdade que o Collor-espetáculo, a partir de um certo momento, talvez ao final de 1991, começa a cansar. Mas, esse cansaço da imprensa que requer sempre o novo, não constitui uma explicação suficiente para o rompimento. Apesar de cansada do show, a imprensa poderia continuar a se relacionar com ele, até com uma visão mais crítica, sem, no entanto, chegar ao rompimento.
A imprensa poderia continuar com suas críticas a Collor, nos termos em que elas se deram até maio de 1992, com altos e baixos, sem que nada de extraordinário acontecesse. E o próprio Collor poderia redefinir sua relação com ela, como fez em mais de uma ocasião. Collor só enfrenta o rompimento dos meios de comunicação a partir da entrevista de Pedro Collor de Mello, cujas revelações, de teor altamente explosivo, e mais explosivo ainda pelo fato de partirem do irmão do presidente, não permitiriam à imprensa ficar inerte ou omissa, sob pena de a legitimidade dela sofrer danos irreparáveis.
De alguma forma, pode-se afirmar que tal prometimento foi construído ao longo dos meses do governo Collor. Construído não tanto pela imprensa que aliás namorou Collor a maior parte do tempo mas pelo próprio Collor, cujo desempenho político à frente do governo, escancarando a corrupção e pretendendo-se poderoso o suficiente para durante largo tempo de seu governo dar-se ao luxo até de desprezar aliados tradicionais no plano político, provocou fissuras na bloco dominante.
Se essa interpretação for correta, o desdobramento natural dela é acreditar que o momento do rompimento, ou do início dele a entrevista de Pedro Collor seria apenas o desenlace de uma crise política que vinha sendo desenhada antes, da qual a própria imprensa não tinha consciência plena.

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Número 10, julho-agosto de 1996
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