Tarefas para 2002 (e todo o milênio)
Centro de Estudos da Imprensa

    Sugestão de pauta

    Tarefas para 2002 (e todo o milênio)

    Lista de resoluções de ano-novo
    para a imprensa brasileira

    À moda dos que a cada segunda-feira ou todo começo de ano fazem uma lista de tarefas para mudar de vida ou melhorar o comportamento, o Instituto Gutenberg preparou um rol de resoluções que a mídia de notícias bem poderia adotar a partir de 2002. Os erros de método ou práticas fraudulentas abaixo relacionados estão presentes, em maior ou menor grau, na elite dos jornais, revistas e noticiários de rádio e TV, e sua ilustração prática tem sido, na maioria dos casos, exaustivamente demonstrada neste boletim.

  • Defender a liberdade de imprensa.
  • Respeitar as leis do país, ou declarar-se em desobediência civil nas situações em que valores fundamentais estejam ameaçados.
  • Deixar de aceitar que as fontes, como hotéis e laboratórios farmacêuticos, paguem despesas dos jornalistas que escrevem reportagens do interesse delas.
  • Pagar pelo que usa, como livros para resenhas e ingressos para espetáculos, inclusive cinema, teatro e jogos de futebol.
  • Evitar que determinados cadernos - Turismo, Variedades ou Informática - continuem a ser catálogos da indústria.
  • Recusar benefícios que se confundam com suborno, como presentes caros, almoços gratuitos e programas "especiais para jornalistas".
  • Rejeitar privilégios institucionais anti-republicanos, como a prisão especial ("cela arejada"...) para jornalistas.
  • Reduzir o uso (abusivo) de fontes anônimas e identificar as fontes de informação.
  • Se não for prudente identificar a fonte, não inventar nome para ela.
  • Publicar pesquisas eleitorais com transparência e equilíbrio, para orientar o público, e não para beneficiar o candidato da casa ou prejudicar o adversário.
  • Editar as notícias, artigos e comentários em português.
  • Pensar duas vezes antes de tripudiar sobre "erros de português" alheios, pois nenhum meio de comunicação do Brasil - nenhum - deixa de violentar o idioma.
  • Banir as críticas liliputianas, como a ridicularização da apresentadora de TV que pronuncia, como quase todo o Brasil, "instintor de incêndio".
  • Escoimar o noticiário esportivo das presunções e dos palpites irresponsáveis.
  • Imprimir respostas e não perguntas.
  • Não omitir notícias contrárias ao interesse da empresa.
  • Informar mais e militar menos.
  • Informar antes de comentar, para que a opinião não apague o fato.
  • Noticiar fatos relevantes da própria imprensa.
  • Divulgar a tiragem e a circulação líquida.
  • Ter a objetividade e a imparcialidade como metas de difícil alcance, mas balizadoras da equanimidade jornalística.
  • Não gerar notícias que a seguir vai divulgar.
  • Não se auto-elogiar tanto.
  • Não perseguir - nem revitimar - as vítimas de tragédias.
  • Não se acumpliciar com criminosos para obter notícias.
  • Respeitar o direito de resposta.
  • Esclarecer toda denúncia de que mentiu, distorceu fatos ou fajutou declarações.
  • Errar menos, reconhecer - e divulgar - os erros.
  • Aumentar o controle de qualidade, antes e depois da divulgação.
  • Respeitar o manual da redação como um contrato com o público.
  • Aumentar o número de palavras dos títulos, para evitar a editorialização e os prejulgamentos.
  • Escrever legendas compatíveis com as fotos.
  • Criar um organismo de auto-regulamentação, a exemplo dos conselhos existentes em países desenvolvidos ou importantes.
  • Divulgar as decisões da Justiça tanto quanto os fatos policiais.
  • Noticiar quando perde uma ação na Justiça, e não apenas quando ganha.
  • Dar à absolvição o destaque antes conferido à acusação.
  • Respeitar os espaços e os bens privados, como a casa, o automóvel, o telefone, as agendas e anotações pessoais.
  • Não impedir a livre circulação de uma fonte, nem persegui-la com uma câmera como se fosse um condenado.
  • Não invadir escritórios e residências.
  • Ter a privacidade como um valor da civilização, e não como um conceito abstrato que muda segundo a cara do freguês.
  • Não divulgar intimidades, como dizer que determinada pessoa pública é impotente e que outra retirou o útero.
  • Não cometer um crime a pretexto de noticiar outro.
  • Não usar falsa identidade nem câmera oculta, nem divulgar material obtido de forma criminosa, como escutas clandestinas.
  • Nas entrevistas, perguntar mais e discursar menos.
  • Pelo menos em assuntos técnicos, mostrar à fonte, antes da divulgação, o que será atribuído a ela.
  • Aposentar expressões cavilosas como "está envolvido...", que vale, inclusive, para o repórter que a reproduz.
  • Não coreografar noticiários da TV como se fossem programas de auditório, nem transformar repórteres em bufões da câmera.
  • Tampouco utilizar horário tão nobre para ensinar receita de pudim.
  • Não participar de concursos de reportagem pagos pelo poder público, nem de prêmios temáticos.
  • Noticiar que o concorrente ganhou o prêmio que seria exaltado se tivesse sido ganho pela casa.
  • Valorizar as notícias de interesse público em detrimento das notícias de interesse do público.
  • Não publicar mexericos nem boatos.
  • Deixar de ser "lixeiro de celebridade".
  • Não aceitar o papel de leva-e-traz, supervalorizando bate-bocas.
  • Aposentar argumentos antiprofissionais, do tipo "o público tem o direito de saber", "o jornalismo exige pressa e por isso comete erros" ou "reclame da mensagem, não do mensageiro".
  • Pedir que a fonte demonstre o que diz, como números absurdos, em vez de passá-los adiante com ar de verdade provada.
  • Adotar o princípio das democracias liberais de que o primeiro dever da imprensa é fiscalizar o poder público.
  • Compreender que o poder público é que detém o mandato popular e nesse sentido um vereador tem mais legitimidade para falar em nome do povo do que um jornalista.
  • Compreender que a liberdade de imprensa é um valor democrático da sociedade e é apenas explorada comercialmente pelas empresas de comunicação .
  • Compreender que a liberdade de imprensa perfila com direitos assegurados na Constituição .
  • Num conflito entre o público e o governo ou entre o público e um anunciante, ficar do lado do público.
  • Abandonar o aulicismo pró-FHC.
  • Atentar para o sensacionalismo de certas coberturas, que mais parecem campanhas de extermínio, como a que corrói a democracia representativa ao achincalhar o Congresso.
  • Não cortar pessoas indesejadas de fotografias.
  • Não turbinar notícia que de antemão sabe inconsistente ou inverossímil.
  • Evitar que os negócios paralelos da empresa jornalística (telefonia, avicultura, lóbi, listas telefônicas, imobiliárias, hotéis, etc. ) influenciem o noticiário.
  • Impedir que contratos de patrocínio interfiram no noticiário.
  • Não usar o noticiário para beneficiar seus negócios e promoções com notícia-anúncio.
  • Buscar o interesse público, e não o particular dos acionistas e das amigas da mulher do dono.
  • Reinvestir a maior parte do lucro nas empresas e não na conta bancária dos acionistas.
  • Evitar práticas de oligopólio, como inovações simultâneas, anúncios conjuntos e venda casada (jornal+fascículo).
  • Emitir nota fiscal dos classificados, da venda nas bancas e das assinaturas, para livrar-se da imagem de maior caixa 2 da República.
  • Pagar impostos sobre o produto e o papel importado.
  • Convencer o público de que Charles Dana fez apenas uma piada quando disse que o "jornalista separa o joio do trigo, e publica o joio."
  • Servir ao público a definição de Finley Peter Dunne: "A função da imprensa é confortar os aflitos e afligir os confortados."
  • Enfim, adaptar o conselho de César para a mulher: Não basta parecer honesta, é preciso ser honesta.

    ©Instituto Gutenberg

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