As palavras da guerra - Taliban, talibã, talibão Instituto Gutenberg

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As palavras da guerra

Elas também são, como a verdade, a primeira vítima

thumbTypesetr1.jpg - 4257 Bytes    Taleban ou talibã? Talebã ou taliban? Que tal talibão? Como num auto-serviço de letras e fonemas, cada um monta sua própria palavra. Apesar de a milícia religiosa figurar no noticiário há pelo menos seis anos, quando tomou o poder no Afeganistão, não adianta procurar nos melhores dicionários: nem o Aurélio (Século XXI) nem o novíssimo Houaiss dignam-se a registrá-la. Expandindo a confusão, a imprensa tem usado diferentes formas para o termo de origem persa que significa “os que procuram o conhecimento”, simplificado para “estudantes” - e, se é possível contar ao menos seis grafias, nenhuma está de acordo com o português.

A Folha e o Estadão escrevem taleban, o Jornal do Brasil e o Globo, talibã. Em inglês, a imprensa também se diferencia: o Washington Post e o New York Times vão de taliban, a CNN prefere taleban, tal qual, em Londres, a BCC e o Times (em português, segundo a BBC, é "talebã"). Na França, os principais jornais e revistas são uniformes: taliban.

Em português, a melhor grafia seria talibane (tal qual Islame) ou talibão – assim como Islão, Afeganistão, Paquistão, Irão, Ceilão, Sião. Repetem-se nas variações caóticas o velho erro de copiar a índole francesa – presente, por exemplo, em decameron, odeon, partenon. Em português, estas palavras terminam em ão. É fácil visualizar a balbúrdia que seria, hoje, a transcrição de outra palavra persa, que também nos chegou pelo árabe: açafrão...
A macaquice de trocar as regras clássicas do idioma pelas formas do país que nos introduziu a palavra (no caso da talibanada, as formas das agências de notícia) leva à conclusão de que talibão seria adaptação horrorosa e portanto prefere-se desrespeitar a língua nacional. Talibã ou taliban ainda passam, a exemplo de uma prima ortográfica que tem os mesmos genes filológicos - a mesma trajetória greco-persa-francesa - talismã/talisman. Mas o taleban do Estadão e da Folha é um monstrengo. Quem sabe os jornais paulistas vão rebatizar o califa e genro de Maomé (que aliás já não é Maomé - leia abaixo) de Talib para Talebe.

Desta vez, nem se pode dizer que em Portugal há zelo maior. Jornais como o Diário de Notícias usam talibã, enquanto O Público não só adota a versão taliban como a mantém inflexível no número (“os Taliban”), porque, no original persa, a expressão já está no plural. É erro idêntico ao que, no Brasil, se comete na escrita de nomes indígenas, como os “Juruna”. Em tupi é assim, mas no português do Brasil prevalecem as regras do Formulário Ortográfico e portanto o correto é “os jurunas”. Da mesma forma, na língua portuguesa, há séculos, não se escrevem gentílicos com maiúscula. Não é porque em inglês americano é American que vamos escrever Americano.

A falta de cuidado é tanta que a imprensa nem se preocupa em verificar se aquelas palavras esquisitas despejadas pelas agências de notícias têm uma versão portuguesa. É o caso de "mullah", também grafada de diversas formas. Basta consultar o Vocabulário Ortográfico: molá.

Forjando filologia própria, parte da imprensa resolveu, também, reescrever o nome do profeta islâmico, grafado tradicionalmente, até por Alexandre Herculano no Eurico e por Eça de Queirós n´O Mandarim, como Maomé, versão que entrou no português pelo francês Mahomet. A forma vernácula é Mafoma (ou Mafamede) – ambas usadas pelo poeta Luís de Camões nos Lusíadas: “Em práticas o Mouro diferentes/ Se deleitava, perguntando agora/ Pelas guerras famosas e excelentes/ Co'o povo havidas, que a Mafoma adora”; “Chamam (segundo as leis que ali seguiam)/ Uns Mafamede, e os outros Santiago.”

Agora, jornais como a Folha de S.Paulo chamam Maomé de Muhammad – de modo que o velho ditado passa a ser “Se Muhammad não vai à montanha...”. Nada disso surpreende numa imprensa que escreve coisas como Kabul (Cabul), Kyoto (Quioto) Jersey (Jérsei) e copidesca o título do livro sagrado muçulmano. Um e outro o abreviam para “Corão” – alegando que o al árabe corresponde ao artigo o do português – o que é verdade mas não avaliza a mudança.

O jornalista Marcos de Castro conta no livro A imprensa e o caos na ortografia que o professor Mansour Chalita observa que Corão tem veio etimológico, mas muitas palavras árabes entraram no português, há séculos, com al incorporado (Chalita, diga-se, traduziu o Alcorão do árabe ao português). A incorporação não ocorreu no inglês e no francês, regras que alguns agora querem impor à tradição portuguesa. Chalita e Castro sugerem aos que usam Corão que também retirem o al de outras palavras árabes aportuguesadas e passem a dizer "roz, manaque, fândega, gebra, cool, garismo, godão, çúcar..."(Carta de Chalita à revista IstoÉ).

Tantos desatinos alimentam um permanente movimento de desrespeito ao idioma. Formas consagradas, que modelam e perpetuam o português, são subitamente abandonadas quando alguém inventa que se em inglês é Koran, em português só pode ser Corão. Este suposto zelo tem mão única – trafega do centro para a periferia. Maomé foi reescrito em nome da correção, mas, em contrapartida, não há hipótese de um jornal brasileiro chamar o presidente americano de Jorge Bush.
28/09/2001

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