Centro de Estudos da Imprensa

    Eleições

    A imprensa vai às urnas

    Candidatos cobram nível alto, mas também
    cabe a eles honrar o jornalismo

    Consolida-se entre os presidenciáveis a antiga noção popular de que a imprensa brasileira cobre eleição como cabo eleitoral de um candidato e gosta muito de diz-que-diz. Ainda que obrigados a manter cordialidade com a mídia, presidenciáveis têm cobrado seriedade aos meios de comunicação e pedem que os repórteres façam perguntas de conteúdo em vez chafurdar nas fofocas.

    Ciro Gomes (PPS-PDT-PTB) mantém na Internet uma página em que mede o noticiário dos principais jornais, e a conclusão é que a "cobertura da imprensa continua tendenciosa". (Registre-se, no entanto, que o ex-governador do Ceará ilustra a página com recortes e menções de jornalistas à sua candidatura. Por ironia, resplende ali uma foto em que ele aparece cercado de repórteres na inauguração de seu comitê de Brasília).

    No programa "Roda Viva", da TV Cultura, Anthony Garotinho (PSB) interrompeu uma série de questionamentos que considerou inapropriados e solicitou que fosse entrevistado quanto a seu programa e suas idéias para a Presidência. Em entrevista ao Jornal do Brasil ("Campanha no fio da navalha"), José Serra resistiu até a terceira pergunta e foi sua vez de indagar: "Nós vamos falar só de tititi?" (Aliás, sabe Deus por que o JB, que já teve Rui Barbosa como editor, põe em itálico o brasileirismo tititi e publica sem sinais de estranheza o estrangeirismo "e-mail").

    Luís Inácio Lula da Silva, do PT, que tinha uma coluna no jornal gaúcho Zero Hora, sugeriu uma ampla fiscalização da cobertura jornalística, exercida a partir dos próprios veículos, que abririam espaço para o debate, por estudantes de Comunicação e também sob as asas Estado: "Não seria útil, por exemplo, que o Tribunal Superior Eleitoral formasse um conselho com representantes de amplos setores sociais, também de partidos, para acompanhar a campanha eleitoral, fiscalizando gastos e analisando criticamente o equilíbrio das coberturas dos meios de comunicação?".

    É salutar que os políticos elevem o nível do debate eleitoral, e, ao menos em público, cobrem da imprensa uma postura equilibrada e dirigida à informação dos eleitores. A imprensa não pode aceitar, no entanto, que eles invertam o exagero. As idéias do candidato Lula, por exemplo, são boas e factíveis, exceto na parte em que inclui o TSE, cujo papel institucional está definido e não deve ser misturado ao da sociedade civil. Ademais, a fiscalização da imprensa deve ser feita com critérios jornalísticos. É tolice queixar-se de que determinado candidato teve mais espaço nos jornais, se, no período, ele foi por exemplo procurado pela polícia e em sua empresa repousava uma montanha de dinheiro suspeito.

    As queixas dos candidatos quanto à prática de leva-e-traz da mídia são justas, mas cabe lembrar que a fase é de levantamento da biografia e atos dos candidatos, suas alianças e acordos, e opiniões acerca de assuntos da atualidade. Não tem cabimento, a seis meses da eleição, quererem ser questionados exclusivamente a respeito de idéias e programas de governo que ainda estão em preparação.

    Seria um despropósito se, numa entrevista com Roseana Sarney, as perguntas flutuassem no alto nível da dívida pública, da erradicação da miséria, da desconcentração da renda, e passassem ao largo das dificuldades da ex-governadora com a polícia e a Justiça a propósito da sua empresa Lunus - assunto que, segundo o Datafolha, interessa a 82% dos eleitores. Registre-se que a candidata do PFL recusa-se a dar entrevistas em que teria condições de apresentar idéias para o bem do Brasil, como é o caso do programa semanal da TV Cultura e da série que o canal pago GloboNews iniciou em 08/04/2002 com os principais candidatos. Também é de notar que, quando ouvem perguntas programáticas, um e ou outro se esquiva. Ainda no "Roda Viva", Anthony Garotinho prometeu baixar drasticamente a taxa de juros, mas, indagado pelo jornalista Reinaldo Azevedo acerca da composição desta taxa, não soube o que dizer. Quando exibiu gráficos que mostram a queda da criminalidade em seu governo no Rio, Garotinho visivelmente pulou um e outro quesito - malandragem solenemente ignorada pelos entrevistadores.

    Aos eleitores e à imprensa convém atentar nas molas que o candidato do PSB põe em suas declarações. Volta e meia diz que não disse o que disseram que ele disse. No mesmo programa "Roda Viva", negou ao cientista Carlos Novaes ter feito uma afirmação que o entrevistador a seguir mostrou estar impressa entre aspas no Estadão. Apesar de ter insultado Novaes ("Não minta"), mudou de assunto quando o jornal lhe foi exibido. Noutra ocasião, acusou a então vice-governadora Benedita da Silva de ter desviado R$ 500 mil de uma ação pública (restaurante popular) para outra privada (ONG do Betinho) e, ao ser ameaçado de processo, alegou ter sido mal entendido. Se é intenso o vaivém, gravar as declarações passa ser obrigatório, e não seria ofensa ao jornalismo ou à democracia se os candidatos, como o cantor Roberto carlos, também ligassem seu gravador durante as entrevistas.
    09/04/2002
    Atualização:

    Em 12/4/2002, Dora Kramer publicou em sua coluna Coisas da Polítíca, no Jornal do Brasil o tópico "Mandrake":
    "O candidato do PSB, ex-governador Anthony Garotinho é, de fato, um mestre na arte do ilusionismo. Depois de anunciar uma auditoria inexistente e tentar aprovar sua própria aposentadoria para recuar ante a repercussão negativa, agora disse à Justiça que nunca, jamais em tempo algum, insinuou que o deputado Márcio Fortes enviara a ele um emissário com um dossiê contra Roseana Sarney.
    Interpelado pelo tucano, Garotinho, ainda no cargo, enviou ofício ao Superior Tribunal de Justiça declarando-se impossibilitado de se manifestar a respeito da notificação. E fornece o motivo: ''É que, lamentavelmente, o petitório do parlamentar se refere a declarações atribuídas, por jornalistas, a assessores não identificados e a outras pessoas, não havendo, sequer, alusão alguma a Sua Excelência nas afirmações irrogada ao governador do Rio de Janeiro.''
    Ou seja, na versão de Garotinho, ele não só nunca fez as acusações, nem mesmo insinuações, como se diz absolutamente alheio a um assunto no qual se empenhou pessoalmente, até mesmo com telefonema direto ao pai de Roseana, senador José Sarney.
    Pois, agora, Márcio Fortes irá à Justiça comum - dado que Garotinho não tem mais foro privilegiado - com uma ação na qual pedirá prova testemunhal. Para isso, já está preparando lista de pessoas - entre elas alguns jornalistas - que teriam ouvido do então governador a referência explícita ao deputado como ofertante do dossiê."

©Instituto Gutenberg

  Índice

igutenberg@igutenberg.org