Instituto Gutenberg

Entrevistas

Perguntar ofende?

Repórteres parecem mais interessados
em discursar do que em perguntar

A cada lote de entrevistas na TV e nos jornais fica-se com a impressão de que os repórteres não estão interessados em fazer perguntas para, dando sentido ao jornalismo, extrair do entrevistado informações de interesse público. Antes de esgrimir um ponto de interrogação, fazem articulados, colocações, assertivas. É o espetáculo de auditório do programa Roda-Viva, da TV cultura de São Paulo, aqui já chamado de “Roda-Diva”. O desvio de discursar antes de perguntar, tão próprio da TV, contamina os jornais. Está patente, num exemplo fácil, na entrevista que Renata Lo Prete, da Folha, fez com o ministro Pedro Malan para a edição de 2/09, publicada com o título “Malan afirma que `o Brasil não é fácil`”.

De 14 questões transcritas, apenas quatro começam com uma pergunta. As dez restantes são antecedidas de “contextualizações” que fazem do entrevistador um interlocutor ora erudito, que passeia seus conhecimentos (acumulados numa pesquisa antes da entrevista...), ora distraído, dando sinais de pouco interesse pelo que ouve. Tem sido comum. Com sua tábua de cortes epistemológicos na mão, entrevistadores não prestam a atenção nem desdobram as respostas, não esmiúçam as declarações dadas pelos entrevistados, limitando-se a seguir a pauta que levam na cabeça ou na caderneta de anotações.

O método antijornalístico sugere, portanto, que o repórter não está minimamente interessado na resposta, e sim na próxima pergunta. É como se a entrevista fosse feita por fax ou correio eletrônico, situações em que o jornalista tem reduzida a oportunidade de reperguntar ou pedir esclarecimentos sobre um assunto relevante exposto pela fonte. Ainda na entrevista de Malan, o ministro da Fazenda, ao responder (melhor seria dizer comentar...) uma dissertação sobre sua propalada candidatura à Presidência da República, afirmou, sem mais nem menos, que “o Brasil é um país extremamente complexo, difícil de administrar, com problemas seculares, economia de grande heterogeneidade. E problemas sociais monumentais, que demorarão gerações para serem resolvidos. As demandas sempre estarão além da capacidade de uma administração atendê-las”.

O jornal selecionou este trecho como o mais importante da entrevista do ministro, tanto que o botou na manchete “Malan afirma que ´o Brasil não é fácil`”. Fica claro que a importância do trecho foi identificada durante a edição, pois, no ato da entrevista, passou em brancas nuvens. O ministro diz que o Brasil não é fácil e a repórter pergunta o quê? A bem da verdade, foi neste bloco sobre a candidatura que a entrevistadora, ex-ombudsman da Folha, fez a única pergunta derivada de uma resposta (“Se o sr. é tão assertivo ao dizer que não será candidato a presidente, por que essa especulação continua a prosperar?”). Mas desprezou a declaração que, de tão importante, serviria de manchete. Obviamente, a resposta de Malan impunha questões como

“e é por isso que o sr. não se candidata à Presidência?”,
“mas como, se o presidente FHC afirma que é fácil governar o Brasil?”,
“ministro, não é isso que os governantes dizem desde Tomé de Sousa?”,
“o sr. está admitindo que o governo FHC fracassou na solução dos problemas sociais?”,
“como pedir paciência a milhões e milhões de brasileiros que estão sem emprego ou passando fome ou desiludidos com o governo?”.

Tal autismo jornalístico também acometeu Silvana de Freitas, da mesma Folha, na famosa entrevista com o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ilmar Galvão, na edição de 27/09/1998. A repórter fez uma pergunta sobre o afastamento do cargo de candidatos à reeleição, e o ministro disparou a bomba: “O afastamento atenua os efeitos, mas sou contra a reeleição. Desde o início eu me manifestei dessa forma. Se eu fosse congressista, nunca aprovaria a reeleição para governador e prefeito. Quando muito, para presidente da República, em uma conjuntura como a atual, em que a permanência do presidente da República é um fato indispensável para a manutenção e para a consolidação do modelo econômico que foi implantado no Brasil.”

O juiz das eleições estava dizendo que a reeleição do presidente FHC era “indispensável”...mas a repórter nem se tocou e continuou como se um petardo não tivesse caído em seu colo. A pergunta seguinte? “A reeleição de prefeito é ainda mais grave?”...

Mais tarde, na redação, alguém percebeu o deslize do fiscal eleitoral e entronizou o ato falho na manchete: “Presidente do TSE afirma que vitória de FHC é indispensável”. Deu, é claro, um grande rolo, mas, novamente, ficou claro que repórteres que não prestam atenção no que os entrevistados dizem chutam pepitas e agacham-se para colher pirita.

03/09/2001

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