Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Mestre da conveniência

    O simpático professor Pasquale só vai na boa,
    mas se encrenca com a técnica do título

    O professor Pasquale Cipro Neto conquistou a simpatia do público ao apresentar programas de TV e assinar colunas de jornal sobre a bela e culta língua portuguesa. Com estilo coloquial, e sobretudo afetivo, aponta erros para ensinar, jamais para humilhar, e não tripudia sobre a vasta ignorância alheia das regras por vezes tortuosas do idioma. Apesar do gênio italiano, resiste à tentação da impaciência que acomete a maioria dos titulares de consultórios ortográficos nos jornais - ranhetice de que não escaparam o português Cândido de Figueiredo e o brasileiro Napoleão Mendes de Almeida.

    Coluna de jornal não é, porém, sala de aula. Deve obediência às regras do lide (o quê? quem?...), e, nesse sentido, o espaço que leva o nome de Pasquale na Folha de S.Paulo (antes chamado "Inculta e bela", repetindo a homenagem-insulto do poeta Olavo Bilac), termina por esvair-se na ação entre amigos que rege a imprensa no Brasil. O professor foge da bola dividida e faz que não vê os tropeços da página ao lado. Só vai na boa. Usinas de solecismos, nossos jornais raramente recebem a atenção do articulista. E para cada tropeço apontado, aparece uma daquelas desculpas de Napoleão em Waterloo: foi o inverno, a pressa, o espaço, a tradição...Assuntos do dia, matéria-prima do jornalismo, são convenientemente ignorados, como a grafia de palavras estrangeiras recém-chegadas às páginas. Se ele é quem vigia o português da Folha, como se diz na redação, conviria explicar, por exemplo, por qual especiação etimológica o jornal chegou às formas "taleban" e "burga".

    Na coluna de 10/1/2002, Pasquale comenta o velho problema do duplo sentido e/ou mistério dos títulos de jornal, e toma como exemplo "Promotoria investiga contas fora do país de Maluf". Claro que não informa onde catou a "pérola", citada como exemplo de ambigüidade (sem trema, de acordo com a desobediência civil-ortográfica da casa), e cuida de entronizar a ressalva "título bom é título que cabe" - um dos muitos axiomas indulgentes da mediocridade que permeia o jornalismo brasileiro.

    Ora, ora, isso é folclore de redação, tal qual a história daquele editor que fazia vista grossa para as barbaridades e ao final da noite parodiava Vinícius de Morais: "Os leitores que me perdôem, mas fechar é fundamental". Saindo do trilho sem perder o rumo, diga-se que circulam por aí numerosos sonetos ruins que não se tornam bons porque couberam na métrica de catorze versos, dois quartetos e dois tercetos. Título bom, ficando o sapateiro no sapato, é título certo, no conteúdo e no tamanho - aquele que resume, na linguagem jornalística, a reportagem ou artigo abaixo.

    Lá pelas tantas, o professor se põe a dar aulas de (mau) jornalismo e diz que se o leitor (pobre leigo na cabala do ramo) sugerir uma frase maior, com mais palavras, do tipo "Contas que Maluf mantém (ou "manteria", dependendo do caso) fora do país são investigadas pela Promotoria", o "redator certamente mandará você passear." Eis o problema: se o ingênuo leitor sugerir títulos maiores, como nos grandes jornais americanos, vai descobrir que os grandes jornais brasileiros mandam muita coisa passear, inclusive as melhores técnicas do jornalismo. Por opção editorial, usam títulos curtos, embora em letras inexplicavelmente grandes, o que os leva a resumir demais, a editorializar e interpretar fatos à moda das revistas.

    É prática em expansão, com destaque no Correio Braziliense, Globo e Jornal do Brasil. O abuso recente de retrancas (ou chapéus), antetítulos e olhos não ameniza problemas de obscuridade da linha principal. Pelo contrário. Para não repetir palavras no conjunto, sacrifica-se a síntese do título propriamente dito. E aí quem passeia é a acurácia.

    Voltamos ao causo do jornal que, em 1952, noticiou com brevidade enigmática a morte do cantor e ídolo popular Francisco Alves, cujo automóvel espatifou-se contra um caminhão na atual Via Dutra: "Acidente na Rio-São Paulo". É erro de concepção jornalística, não questão de sintaxe, ambigüidade, clareza, obscuridade, o que seja. Isso não há professor de português que corrija.
    PS - O título em debate passaria clara e suavemente pelos olhos e ouvidos na forma "Promotoria investiga contas de Maluf no Exterior".
    10/01/2002

    ©Instituto Gutenberg

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