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Grandes jornais protegem o presidente como o oficialíssimo Granma adula Fidel Castro

De vez em quando é educativo, e mesmo divertido, verificar de que forma os grandes jornais da elite da imprensa do Brasil tratam um fato que desagrada a maioria deles. Vaias no presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo.

Nos pormenores, o grande jornal paulista O Estado de S.Paulo continua no período mais governista da sua “vida independente”, da qual faz questão de tirar o lustro em que ficou nas mãos do governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Na edição de 08/09, o Estadão simplesmente omitiu que o maior protegido da casa, o presidente Fernando Henrique Cardoso, fora vaiado durante o Desfile Militar de 7 de Setembro, em Brasília. “O desfile foi aplaudido muitas vezes, mas a solenidade acabou com vaias” foi tudo o que o jornal genericamente registrou, cuidando de citar o perspicaz ministro da Justiça, José Gregori, que assegurou nada ter ouvido. O Granma não faria diferente para adular Fidel Castro.

Em contrapartida, o Estadão destacou num título: “Marta é vaiada e Alckmin recebe aplausos em SP” – aqui copiando, pela enésima vez, uma invenção da concorrente Folha de S.Paulo, a de dar a sigla do estado como sendo da capital. De onde se conclui que vaia só é notícia quando dirigida a autoridades de linha ideológica oposta à do jornal, mesmo que de um lado esteja uma prefeita e de outro ninguém menos que o presidente da República.

O Jornal do Brasil, no entanto, em fase de reconquista de prestígio, sob a direção de Mário Sérgio Conti, destacou na 1ª página: “FH é vaiado na parada de 7 de Setembro”. Quem apupou o presidente? Segundo o relato de Marise Lugullo e Fabiano Lana (“FH vaiado no Dia da Independência”), “não há qualquer indício de que fossem militantes políticos”. No Globo a vaia foi calada na 1ª página e sussurrada na notícia interna: “A bordo do Rolls-Royce conversível da Presidência, reformado recentemente, Fernando Henrique foi aplaudido na chegada ao desfile. Na saída, manifestantes o vaiaram.” Eis uma discrição típica do período da rolha, na ditadura militar, em que manifestações desse tipo eram escondidas ou por ordem da censura ou por medo dos jornais.

A Folha omitiu a vaia nos títulos e só fez referência a elas na última parte da notícia “FHC diz que se faz ´revolução silenciosa` na área social”. Acrescentou um pormenor inexistente nos outros relatos: “As vaias acompanharam o presidente durante o trajeto de aproximadamente três quilômetros até o palanque oficial”. O maior jornal do País iludiu seus leitores com uma seqüência de fotos, na 1ª página, na qual autoridades apareciam bocejando – de dona Ruth Cardoso ao vice-presidente Marco Maciel. Sugeria que a parada de Brasília foi tediosa. Ao contrário, transcorreu, de acordo com o JB, em ambiente de grande animação (um entrevistado, o advogado Antônio Santos, comparou-a ao Carnaval). O JB calculou a presença de aproximadamente 70 mil pessoas, uma parte delas disposta a aplicar no presidente “uma sonora vaia no momento em que ele deixava o palanque das autoridades”.
08/09/2001

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