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Maquiagens e maquiagens

Jornais também reduziram o tamanho

Marcelo Soares

A imprensa brasileira, principalmente os jornalões do Centro-Sul do país, tem promovido uma cruzada contra as empresas que reduzem a quantidade de produto e não baixam o preço. É o caso, por exemplo, do papel higiênico, que baixou de 40 metros por rolo para 30 metros por rolo alegando aumento de custos com a crise energética (ou argentina, ou do dólar...).

O embate tem tido momentos que beiram o surreal. Lembro de ter lido, logo no início da série de revelações sobre o assunto, um anúncio de fabricante de papel higiênico dizendo que, dali por diante, a empresa colocaria no mercado rolos de 30 metros "com tecnologia atualizada" e rolos de 40 metros "com tecnologia antiga".

Apesar de a imprensa brasileira cobrir, em detalhes, o fenômeno apelidado de "maquiagem" de produtos, ela não tem lembrado um detalhe que atinge a ela própria. Em julho de 99, com a crise da desvalorização do real, os maiores jornais do país reduziram em 10% sua largura sem baixar o preço. Como subiu o dólar, o papel de imprensa ficou mais caro.

"Francisco Mesquita Neto, vice-presidente da Associação Nacional de Jornais e diretor-superintendente do Grupo Estado, acredita que os custos cairão por volta de 5 por cento, já que alguns veículos contarão com mais páginas editoriais. Com essa economia, os jornais ampliam sua competitividade, podendo manter o preço de capa e evitando altas futuras nos custos finais, tanto para os leitores quanto para os anunciantes." O trecho é de matéria da edição de julho de 99 do Jornal da ANJ (que agrega a maioria dos empresários do ramo).

Na época, um jornal padrão custava R$ 1, e não baixou o preço. Hoje, custa R$ 1,70. Aumento de 70%, portanto.

Mesmo isso não impediu a crise atual. Na crise atual, o que acontece é que se cortam páginas. Notaram que cada dia tem menos páginas de matérias nos jornais? Ah, claro, cortaram pessoal também.

É importante para o público a revelação de que empresas vendem mais do que entregam. Mas é no mínimo dar informação incompleta os jornais "esquecerem" que já fizeram o mesmo, explicando seus motivos. Que, aliás, foram muito melhor explicados do que os dos fabricantes de papel higiênico.

02/09/2001

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