Plantão de palavras Instituto Gutenberg


    Plantão de palavras

    Academia de Letras deveria ser rápida no aportuguesamento de termos estrangeiros

    A Academia Brasileira de Letras é muito criticada pelo que não merece – a exemplo das reprovações um tanto infantis sobre seu cerimonial. Que isso fique para a consciência dos acadêmicos. A Academia merece críticas, no entanto, por falhar na tarefa pública de zelar pela língua portuguesa no Brasil. Desde 1931, quando o presidente Getúlio Vargas autorizou-a a fazer um acordo ortográfico com a Academia das Ciências de Lisboa, a ABL tem a responsabilidade oficial de fixar a ortografia nacional. Em 1938, um decreto de Vargas tornou “obrigatório o uso da ortografia resultante do acordo” no “expediente das repartições públicas e nas publicações oficiais de todo o país, bem como em todos os estabelecimentos de ensino, mantidos pelos poderes públicos ou por ele fiscalizados.” É o que vale ainda hoje, com as novidades introduzidas pelo acordo de 1943, quando passaram a vigorar as Instruções para a organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

    O Vocabulário Ortográfico determina como devem ser escritas (e, em alguns casos, pronunciadas) as palavras da língua portuguesa no Brasil, tanto as que entraram com a bagagem dos colonizadores como as aqui forjadas e as importadas de outros idiomas. Não poderia ser mais claro: “Todos os vocábulos devem ser escritos e acentuados graficamente de acordo com a ortoépia usual brasileira e sempre seguidos da indicação da categoria gramatical a que pertencem.”

    O professor Napoleão Mendes de Almeida, na Gramática metódica da língua portuguesa, defendeu este protocolo de forma tão incisiva quanto bela: “... indispensável se torna que o vocábulo exótico, ao entrar no português, se expunja desde logo de todos os estigmas, que lhe assinalam a ascendência, isto é, da marca exótica, do cunho alienígena, e sofra a naturalização, transplantação ou aclimação, vestindo-se dos característicos idiomáticos, adaptando-se à mesma forma daqueles com que vem concorrer, assumindo na república de palavras, que é o vocabulário ou léxico, a cor ambiente, a feição mesológica, o tipo ou a fácies consentânea com a fisionomia da língua do país.”

    Mas, nos últimos anos, a Academia tem se limitado a copiar palavrões estrangeiros, como o nunca assaz lamentado site (pronuncia-se sáite, ensinam os acadêmicos) – assim como uma infinidade de monstrengos aqui já descritos como tijolos gráficos e prosódicos que agridem a índole da língua portuguesa. Constam do Vocabulário Ortográfico barbaridades como breakfast, browser, bug, carrying, chanuká, colt, file, gefiltefish, girl, grônops, groom, groschen, happy-end, homestead, kaddisch, kadich, kümmel, manager, meeting, network, new-look, newmarket, off-line, out-bord, out-caste, out-line,output, outrigger, outsider, parkerizar, pessach, , pointer, scanner, schebat, schedule, scholar, schottisch, schottische, schroeckingerita, schwabacher, scraper, scrapie, scratch, scratchman, script, sfogato, snekar, snik, snipe, spool, sportsman, sprue, squeeze, starter, steeple-chase, steeple-chase, steward, strogonoff, styraloy, svetlozarita, trustedtita, tsaréviche, tsunami, tzedaká, tzedaká, up, uppercut, up-to-date.

    A Academia falha na interceptação desses palavrões. Deveria ser ativa, mantendo sua Comissão de Lexicografia atenta à entrada de palavras que, necessárias, devam ser aportuguesadas para figurar no acervo da língua. Em resumo, a Academia pode criar um plantão léxico. Tão logo uma nova (e esquisita palavra) apareça, os especialistas dirão como ela deve ser aportuguesada. Será um trabalho útil para o dia-a-dia, de vez que as pessoas que têm os primeiros contatos com os neologismos ou mesmo velhas palavras estrangeiras trazidas pela tecnologia não demonstram preparo para fazer o aportuguesamento. A grande porção de termos e locuções da informática constitui o maior e pior exemplo dessa desnacionalização do idioma.

    A Comissão de Lexicografia da ABL tem os nomes mais qualificados para a tarefa, como Antônio José Chediak e Evanildo Bechara. Em minutos, eles poderiam conceder o visto de entrada na alfândega das palavras, incluir a naturalização no Vocabulário Ortográfico, que pode ser consultado na Internet, e, por meio de nota à imprensa, comunicar a novidade. Acabariam com a salada indigesta que os jornais fazem quando reproduzem termos estrangeiros, como fazem agora na cobertura do terror no Islão. A ABL determinaria, por exemplo, qual a grafia portuguesa correta: taleban, taliban, talebã, talebane, talibane, talibão? Como grafar a cidade do Afeganistão que está sendo bombardeada pelos Estados Unidos e Reino Unido: Candahar ou Kandahar? Claro, sempre haverá os que preferirão pautar-se pela imprensa americana e, em vez de antraz, escrever anthrax – como faz a revista Veja.

    Evidentemente, ainda que seja um truísmo (do inglês truism), convém lembrar aos acadêmicos que é seu dever respeitar as regras do Formulário Ortográfico e aportuguesar as palavras, em vez de, para insistir no exemplo de site, simplesmente copiá-las. De lexicógrafos espera-se que ajam como lingüistas e não como copistas.
    23/10/2001

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