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Corporativismo

A fraude da foto

Folha omite nome do fotógrafo que montou cena

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O ombudsman Bernardo Ajzenberg, na coluna "No reino do vale-tudo”, de 24/06, fez um relato de como duvidou da autenticidade de uma fotografia publicada na 1ª página do jornal, na edição de 19/06, na qual um homem encolhido, tiritando de frio, aparecia bem ajustado à lente do fotógrafo embaixo de um termômetro de rua, na Av. Paulista, que marcava 11 graus. Segundo Ajzenberg, a Secretaria da Redação apurou e comprovou a fraude. A cena fora montada pelo fotógrafo.

Parece preciosismo, mas se trata do contrato que os jornalistas têm com a realidade. No Brasil, a fotografia é menos vigiada que o texto - embora baste olhar jornais e revistas para comprovar que a maioria das fotos que não pegam o chamado flagrante são, na verdade, cenas montadas pelos fotógrafos. Raramente vê-se uma pessoa numa situação espontânea. Estão mostrando alguma coisa ostensivamente, dispostas um determinado lugar, o ambiente de trabalho está ajeitado para compor o quadro que interessa ao fotógrafo condensar na foto. É prática mundial que aproxima o jornalismo da cenografia.

No ardil cênico da Av. Paulista, surpreendente foi a denúncia do ombudsman. A partir daí sucederam,-se no entanto, os lances de conveniência típicos da imprensa brasileira. O secretário interino da Redação, Gustavo Patu, num eufemismo que jogou a falsificação para debaixo do tapete, disse que “a foto não era espontânea”.O ombudsman conferiu gravidade ao incidente, comparando-o à maracutaia da repórter americana Janet Cooke, que ganhou e teve de devolver o grande prêmio da imprensa dos Estados Unidos, o Pulitzer, em 1981, por ter inventado um menino viciado em drogas.

Janet Cooke...Todo mundo fala dela. É exemplo citado e exposto, com nome, data e lugar. Mas, no Brasil, quem segue os passos da fraudadora fica anônimo, O ombudsman não deu o nome do fotógrafo. É um item capital do lide: “quem?” Pessoas acusadas de fraude noutros campos podem pedir o mesmo tratamento ao jornal: digam que fraudei, mas não digam que fui eu. Quem quis conhecer a identidade do cenógrafo teve de conferir na edição do dia 19/06: Caio Guatelli.

E qual a providência que o grande jornal paulista tomou em relação ao fotógrafo mentiroso? Tudo que sabemos, e exaustivamente, é que Janet Cooke foi demitida do Washington Post e caiu em desgraça. O Post, que elevara o anonimato à condição de oráculo na cobertura do caso Watergate, baixou então a norma de que nenhuma informação de fonte anônima pode ser divulgada sem que pelo menos dois editores saibam de quem se trata.

26/06/2001

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