Comentário do Dia - Censura aceita
Centro de Estudos da Imprensa

Comentário do Dia

Censura aceita

Imprensa acomoda-se à proibição
de divulgar nome de acusado

Aconteceu de novo: uma autoridade obteve na Justiça a omissão de seu nome no noticiário. Um delegado da Polícia Federal, acusado pela presa Roberta Menuzzo de ter mantido relações sexuais com a cantora mexicana Gloria Trevi na carceragem de Brasília, não é identificado em nenhum jornal - enquanto outros policiais são nomeados por extenso. É mais um caso. Em 1999, o juiz Cléber Lúcio de Almeida, de Belo Horizonte, teve o nome retirado de reportagens sobre corrupção no Detran, apesar de ter sido acusado de comprar uma carteira de motorista por R$ 2 mil.

Por incrível que pareça, a imprensa acomoda-se à censura. O Jornal do Brasil menciona a mordaça na reportagem "Policiais vão à Justiça contra Trevi": "Roberta denuncia um delegado, que conseguiu liminar na Justiça para não ter o nome citado na imprensa". Também no pé da sua reportagem sobre o assunto, "Policiais querem DNA no caso Gloria Trevi" , o Estadão registra a censura de forma humilhante: "Um ministro do STF criticou a decisão da Justiça de proibir os veículos de comunicação de divulgarem o nome de um dos policiais acusados de manter relações com Gloria Trevi. Para o ministro, a decisão representa censura, incompatível com a liberdade de imprensa. Segundo ele, os meios de comunicação deveriam recorrer da proibição." Este parágrafo, o último do texto, foi cortado da versão divulgada na Internet.

Pelo visto, a imprensa brasileira precisa ser informada sobre a ilegalidade da censura, a ponto de um jornal mandar um recado para si mesmo: reaja, defenda a liberdade que é a matéria-prima do seu trabalho. Ninguém protesta, nem, sequer, põe o assunto em debate, para que o público firme convicção sobre os limites da liberdade de imprensa e a garantia dos direitos individuais.

Registre-se que, se for inocente, o delegado fantasma tem alguma razão em querer seu nome fora do dramalhão que a mexicana Gloria Trevi imprime na imprensa brasileira. Presa em Brasília, por acusação de pedofilia em seu país, ela tem feito de bobos os jornalistas e as autoridades com as versões burlescas da sua gravidez. A imprensa gosta. A ponto de fartar-se com manchetes diárias e reportagens de meia página em diários elegantes como o Jornal do Brasil. É mais uma prova de que o Brasil não tem os tablóides de fofoca dos Estados Unidos e da Inglaterra porque os jornais sérios não deixam.
28/11/2001

©Instituto Gutenberg

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