Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Sócios nos negócios e nas notícias

    Abertura de capital atrairá grupos interessados
    em ter a imprensa como porta-voz

    A abertura da imprensa ao capital estrangeiro ainda será analisada neste espaço, a depender da forma como vai se dar a mudança do artigo 222 da Constituição, mas, desde já, a questão da sociedade se coloca: quem vai comprar os 30% que poderão ser desnacionalizados? Que pessoas jurídicas se beneficiariam da propriedade integral de uma rádio ou de uma TV? Não há sinais de que grupos jornalísticos serios tenham interesse na mídia de notícias do Brasil - ou seja, é melhor não esperar que jornais como The New York Times e Le Monde ou redes de TV que respeitam a notícia, como a ABC americana, estejam esfregando as mãos para se tornarem sócios minoritários do Estadão ou do SBT.

    A recente experiência de desnacionalização mais próxima, na Argentina, mostrou que quando o importante diário Clarín abriu seu capital a estrangeiros, quem se apresentou foi um banco - o americano Goldman Sachs, que pagou 500 milhões de dólares por 18% do grupo de comunicação sul-americano. E bancos, fundos de pensão e empresas que desejam proteger negócios paralelos é que se pode prever na abertura. Para companhias que já têm empreendimentos correlatos à mídia de notícias, como as telefônicas, rainhas das telecomunicações e até mesmo provedoras ou sócias de portais na Internet, será muito conveniente adquirir uma fatia de um ou mais grande meio de comunicação. Terão um porta-voz fiel ao negócio mas não à notícia.

    Pelo figurino da imprensa brasileira, sócio não erra e é protegido no noticiário. A Folha de S.Paulo exalta os acertos e esconde os erros do seu instituto de pesquisa da Datafolha, e produz noticiário parcial quando uma empresa coligada, como o serviço de Internet Bol, entra em conflito com um concorrente, no caso a americana Aol - a exemplo da reportagem "BOL recorre de decisão sobre publicidade", de 12/11/2001, na qual repercutiu a briga no Conar com um único publicitário, Luiz Lara, que falou a favor da casa. A militância empresarial chegou ao ponto de a Folha,depois de celebrar uma vitória do Bol na Justiça, omitir uma decisão desfavorável: "TJ anula decisão que favorecia o provedor BOL "

    Nessa linha em que o negócio prevalece sobre o jornalismo, ou que a notícia fica a serviço do negócio, o Estadão vê muitos problemas no serviço da Telesp Celular e nada de errado nos da sua sócia BCP ("Telefone para ler"). O Jornal do Brasil destaca na primeira página fatos que servem às transações extrajornalísticas do seu dono, Nelson Tanure, lobista do grupo canadense TIW numa pendência nada edificante com o Banco Opportunity. A Globo, quando tinha interesses na Golden Cross, fazia de conta que plano de saúde no Brasil levava todo mundo ao hospital Albert Einstein. Desfeita a sociedade, apareceram as notícias.

    Sociedades inevitavelmente reduzem a independência do jornalismo, quando há independência, e trazem como efeito maligno para a circulação de informações a sinergia dos negócios. Reportagens passam a levar em conta o organograma da empresa e os interesses paralelos dos acionistas. Em 1996, quando ocorreu a onda de fusões e aquisições na mídia americana, para a capitalização das empresas ("o bolso forrado") que agora se invoca no Brasil, a revista Newsweek observou: “Bolsos forrados significavam, antigamente, que os veículos de comunicação tinham recursos suficientes para apoiar suas reportagens investigativas, se arriscando, com freqüência, a ser processados. Hoje, entretanto, bolsos forrados freqüentemente significam um compromisso maior com acionistas e compradores em potencial do que com o princípio jornalístico da busca da verdade.”
    27/11/2001

    ©Instituto Gutenberg

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