Comentário do Dia - Instituto Gutenberg

    Comentário do Dia

    Epitáfio da fantasia

    Aos poucos, imprensa ajoelha-se
    diante de Eduardo Jorge

    O Estadão vem fazendo o epitáfio das investigações e reportagens fantasiosas sobre Eduardo Jorge Caldas Ferreira, o ex-secretário-geral da Presidência da República que esteve sob fogo cerrado do Ministério Público e da imprensa. "Arquivadas 15 ações contra Eduardo Jorge", anuncia o jornal, citando decisão da corregedora-geral Anadir de Mendonça Rodrigues. Diz o Estadão que a corregedora considerou que "as denúncias dos 15 processos arquivados baseavam-se em reportagens publicadas pela imprensa sem a indicação de provas."

    Aos poucos, mas não sem resistência, a elite da imprensa vai se ajoelhando diante de um acusado que não se dobrou. Como poucos, insistiu, meticulosamente, em contestar com cartas as acusações, entre muitas, de que recebeu dinheiro desviado do prédio do TRT de São Paulo, mancomunou-se com o juiz Nicolau Lalau para nomear juízes favoráveis ao governo, fraudou o fisco, comprou apartamento de luxo no Rio sem recursos compatíveis com a declaração de renda, fez negócios escusos com o governo de que era prócer, etc. etc. É uma atitude rara. Em geral, os acusados vergam-se em genuflexão humilde, não importa quão fantasiosas, inconsistentes, ou tecnicamente capengas sejam as "reportagens de denúncia" onde tudo se encontra, menos jornalismo.

    Ainda há três processos em curso, mas o que aconteceu até agora confirma a necessidade de a sociedade civil defender-se do Estado com a mal chamada Lei da Mordaça, aquela que proíbe servidores de fantasiar-se de Wiliam Lynch fora do Carnaval. Foi o comportamento dos procuradores Luis Francisco de Souza e Guilherme Shelb: julgaram sumariamente um acusado, por intermédio da imprensa, semeando "veementes indícios" de corrupção. Por ironia, os dois procuradores foram acusados por um jornal de plantar notas falsas na mídia. O Estadão sustentou: "E quais seriam esses indícios? Matérias de jornais e revistas"... "´plantação`" de insinuações caluniosas na imprensa..." A dura peça consta do editorial de 10/11 ("O fim do 'caso EJ'"), no qual o jornal comentou o "epílogo de um caso antológico de perseguição política travestida de defesa do bem comum."

    Descontado o ímpeto governista do jornal, que protege o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso como a Última Hora guardava as costas de Getúlio Vargas, o editorial elogiou a decisão do juiz Casem Mazloum, da 1.ª Vara Criminal Federal de São Paulo, que mandou excluir Eduardo Jorge de todos os inquéritos em que ele aparece como réu ou acusado no caso do prédio do TRT. "Em nenhuma linha sequer (das quase 10 mil páginas do processo relativo à fraude) há qualquer referência ou existência de uma única prova, mesmo indiciária, indicando o envolvimento de Eduardo Jorge em algum fato incriminador", escreveu o juiz.

    Já em agosto do ano passado, o Correio Braziliense pediu desculpas aos leitores e a Eduardo Jorge por ter noticiado, falsamente, que ele era sócio da empresa DTC, acusada de negócio escandaloso com o Banco do Brasil. Em contrapartida, publicações que usaram rios de tinta na reprodução de acusações vagas a Eduardo Jorge, como a Folha de S.Paulo, têm se limitado a registrar a queda das acusações sem fazer autocrítica de seus exageros. E nem de longe a notícia de reparação compete, em tamanho, com o sensacionalismo gráfico da acusação. Enquanto o Estadão botou a decisão da corregedora como manchete de seis colunas (toda a largura da página A8), a Folha ("Caso TRT - 15 processos contra EJ são arquivados") jogou-a no pé da página A6.

    Por encomenda? - A reportagem de capa da revista Época "Eu fumo maconha" gera efeitos de toda ordem. Agora, o procurador de Justiça Nelson Lacerda Gertel quer que os jornalistas que fizeram e usuários que deram entrevistas identifiquem os fornecedores da droga, enquadrando-os na Lei Antitóxicos que pune os incentivadores do "uso indevido ou o tráfico ilícito de substância entorpecente ou que determine dependência química ou psíquica" (Notícias da Mídia).

    O procurador colheu na reportagem "a forte impressão de que a matéria poderia ter sido sugerida ou efetuada por influência das poderosas quadrilhas que dominam o mercado do narcotráfico". É puro delírio supor que a revista atendeu a uma encomenda de traficantes. Mas não deixa de ser interessante a reação a um jornalismo feito num clima de "liberou geral".

    Capital - Não há como evitar o riso diante de um título do Estadão sobre a "Crise Argentina":
    "Fuga de capitais é "dramática", afirma Marx"

    22/11/2001

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