Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Correge comigo...

    Colunistas de jornal espicaçam - erradamente - os colegas da TV

    Repórter de TV sofre. Há sempre um catão das letras num jornal, de olhar fixo e dedo em riste, pronto a apontar-lhe o erro mais simples, não importa se na página ao lado a capital da Birmânia seja Paris, se Cristo morreu enforcado ou que o cúbito esteja localizado na perna.

    O narrador Galvão Bueno, tão criticado, escapou galhardamente, na Argentina, da síndrome do locutor esportivo que fica perdido quando o jogo é cancelado - a exemplo do causo famoso de um repórter que, em 1965, foi à Argélia cobrir uma partida do Santos, e deparou uma notícia mais importante: a deposição do presidente Ahmed Ben Bella. O repórter limitou-se a telegrafar à redação: "Jogo adiado, Ben Bella caiu."

    Em Buenos Aires, para transmitir Flamengo e São Lourenço, Galvão Bueno pegou o microfone e foi noticiar a revolta popular que derrubou o presidente Fernando de la Rúa. Não era fácil obter informações num ambiente conflagrado, mas saiu-se bem. No dia seguinte, era criticado pelo colunista César Giobbi, do Estadão, por "tropeços ao vivo", e um deles teria sido o uso do "termo espanhol" "cerrado as portas".

    Pior do que errar é corrigir erradamente. Cerrar vem do latim e é tão português como um fado, inclusive na acepção de fechar. O crítico de Galvão Bueno deveria, também, copidescar Machado de Assis ("Helena estava sentada, com a cabeça caída sobre as costas da cadeira, e os olhos metade cerrados", Helena) e passar um carão no velho Eça de Queirós, que, em A relíquia, usa o verbo tal qual o locutor da Globo: "Pôncio deixara a sala; o decurião, saudando, cerrou a porta de cedro."
    21/12/2001

    Leitura recomendada
    Dicionário Aurélio

    
    

    ©Instituto Gutenberg

    Índice Geral   Comentários anteriores   igutenberg@igutenberg.org









Leia mais
Bárbaros são os outros
Casa de ferreiro...
Nossa língua portinglesa