Comentário do Dia - As armadilhas da entrevista Instituto Gutenberg

    Comentário do Dia

    As armadilhas da entrevista

    Caso Soninha x Época embute debate fecundo

    O caso de Soninha Francine com a revista Época suscita um debate inovador sobre o processo de negociação de entrevistas e quanto à "propriedade" das palavras e da imagem da fonte. Depois de ter sua foto posta na capa e em cartazes da revista com o título "Eu fumo maconha", a ex-apresentadora do programa "RG" e colunista de futebol da Folha de S.Paulo reclamou que não fora informada desses procedimentos e que, se tivesse sido, teria vetado.

    "É bem diferente você ser entrevistado para uma reportagem de capa, entre várias outras pessoas, e ser a capa da revista. É bem diferente eu estar na matéria e minha foto estar na capa da revista, que ainda por cima é um outdoor", disse Soninha à Folha. "Até agora eu não me conformo. Vejo a capa, fico constrangida. Não posaria para uma foto dizendo "eu fumo" nem que isso fosse permitido por lei."

    O incidente aponta para um calcificado problema: a precária negociação de uma entrevista, o breve e necessário contrato que um repórter e uma fonte de informação fazem, ou deveriam fazer, quando um aborda o outro para obter informações. À parte a sofreguidão de muitos para aparecer na mídia, e descontada a banalidade com que jornalistas tratam de assuntos cruciais para as fontes, o contrato tende a ser prejudicado pela falta de poder das partes. Depois que fala, a fonte é refém do verbo. Depois que ouve, o jornalista é senhor da palavra.

    Jornalistas não gostam de dar informações sobre esses procedimentos, nem de assumir compromissos com as fontes. Nas revistas, em geral, o repórter não sabe como a informação que colheu será processada pela infinidade de mãos que mexem no texto até o final. É no processo de edição que se decide o destaque a cada fonte e a suas declarações ou imagens. Uma e outra podem reduzidas, ampliadas ou mesmo desprezadas. As fontes têm, no entanto, o direito, e deveriam ter a ousadia, de indagar sobre o processamento da sua entrevista. Foi este o descuido de Soninha: "Só me arrependi de não ter perguntado o que seria feito com minha foto, se eu seria capa da revista."(Folha, "Soninha afirma que não está arrependida").

    Ela está dizendo que se tivesse sido avisada que sairia na capa e nos cartazes de rua afirmando "Eu fumo maconha" teria se oposto. E aqui a questão engrossa. Depois de conceder uma entrevista e deixar-se fotografar, pode o entrevistado exigir que sua participação numa reportagem, na qual figurem outras pessoas, seja editada desta ou daquela forma? E se discordar do encaminhamento, pode proibir a divulgação da entrevista e da foto? As fontes podem dizer sim, mas, no figurino da imprensa, a resposta é não.

    A imprensa considera que a entrevista pertence a ela, que perguntou, e não ao entrevistado, que respondeu. O método jornalístico de seleção brutal e destaque sensacional consiste em editar as palavras, e até o pensamento da fonte - por exemplo, com cortes brutais das declarações. No caso, Soninha não se queixa de distorção ou corte de suas palavras, mas diz que queria aparecer de forma discreta ("a intenção era discutir o estigma"), e surpreendeu-se ao figurar numa montagem na capa e nos cartazes publicitários de Época.

    Constitui um truísmo observar que o caso alcança repercussão por que Soninha é não apenas famosa como pertence ao meio da comunicação social. Colegas, como Ernesto Varela, também apresentador da TV Cultura, saíram em defesa dela e acusaram Época de deturpação. Seguramente, milhões de pessoas já passaram por isso e não tiveram a oportunidade de reclamar. O máximo que conseguem é sumir-se na seção de cartas - quando há seção de cartas.

    A conclusão é que fontes bem intencionadas, cujo interesse seja divulgar informações ou opiniões de interesse público, pensem duas vezes antes de abrir a boca. E que os jornalistas entendam que a sua rotina e objetivos podem causar danos a uma fonte de boa-fé. Raros agem como Mike Feinsilber, chefe de reportagem da Associated Press em Washington, que diz ter um procedimento avesso à rapinagem: "Às vezes, digo às pessoas ingênuas que estou entrevistando: Não me fale nada que você não queira ver publicado no jornal. Não quero tirar vantagem da inexperiência das pessoas em lidar com repórteres".

    De qualquer forma, cabe ao jornalista admitir que, famosas ou desconhecidas, as fontes têm uma avaliação peculiar do que seja uma entrevista à imprensa. Numa pesquisa feita pelo Instituto Gutenberg em 1995, sobre "Direitos das Fontes de Informação", 85,9% dos entrevistados reivindicaram o direito de "ler as declarações que lhe forem atribuídas, antes de serem publicadas". E 52,3%, contra 45,6%, disseram que deveriam ter o poder de "Mudar suas declarações antes da publicação". Soa como pedir ao crupiê que devolva a aposta perdida.
    21/11/2001

©Instituto Gutenberg

 
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