Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    O rito anual da mesquinhez

    Jornal que não ganha, não divulga o Prêmio Esso

    A cada ano repete-se um cerimonial de mesquinharia a demonstrar o quanto a imprensa brasileira está longe do padrão de excelência. Desta vez, foi o Estadão que sonegou aos leitores o resultado do 41º Prêmio Esso de Jornalismo, o mais importante concurso da imprensa brasileira. Como não ganhou nada, não divulgou nada. O grande vencedor de 2001 foi a revista IstoÉ, que venceu a categoria principal - Jornalismo - e, dos grandes jornais, o Globo, com quatro prêmios, inclusive o de Reportagem, enquanto a Folha ganhou a categoria Regional Sudeste.

    Esta aplicação da Lei de Gérson sugere que jornais que só noticiam o resultado de um prêmio nacional quando estão entre os vencedores colocam-se como marco principal de um acontecimento. Como um rei auto-referente, bradam "a notícia sou eu". O prêmio não interessa aos leitores? Bem, em 23/11 o Estadão publicou: "'"Estado' e 'JT' são finalistas do Prêmio Esso". Fica claro que a autopropaganda é mais importante que a notícia.

    Eis um suspiro mesquinho do Brasil arcaico, uma doutrina David Nasser em que o importante é levar vantagem em tudo. Mas são jornais, não boletins corporativos. Não se pode exigir que o informativo do Coríntians divulgue as vitórias do Palmeiras, mas de meios de comunicação de interesse geral espera-se lealdade ao jornalismo mesmo quando a notícia lhes for adversa.

    Neste panorama de manipulação tribal, destaque-se a atitude jornalística do Jornal Nacional e da Folha. O noticioso da Globo destacou demoradamente, na edição de 19/12/2001, o prêmio que ganhou - Especial de Telejornalismo, concedido pela primeira vez -, mas encontrou tempo para dar o nome dos demais vencedores. A Folha destacou a vitória da revista da Editora Três ("IstoÉ" ganha prêmio com gravação de ACM), que era de fato o lide da notícia, embora a regra da mesquinhez seja exaltar a conquista própria, ainda que secundária, segundo a qual sairia um título do tipo "Folha ganha Prêmio Esso Sudeste Regional". O JB mesclou as duas práticas. Deu o titulinho "Crise no Senado vale prêmio Esso", que alude a IstoÉ, mas abriu a nota informando que seu editor-chefe Ricardo Boechat "recebeu o Prêmio Esso de Informação Econômica 2001" - só que por um trabalho de equipe realizado no Globo.

    Não há novidade nessas transações antinoticiosas (Leia Despeito suspeito). O jornalista Clóvis Rossi recebeu, em 4 de outubro, o Prêmio Maria Moors Cabot 2001, outorgado desde 1938 pela melhor escola de jornalismo do mundo, a de Columbia, a profissionais da América Latina, Canadá e Antilhas que tenham "contribuído para a liberdade de imprensa e o entendimento interamericano". Um dos mais famosos jornalistas brasileiros da atualidade, Rossi é colunista da Folha de S.Paulo, mas, a julgar pelo silêncio com que o resto da imprensa sepultou a premiação, escreve na Gazeta do Burundi.
    20/12/2001

    
    
    Ditos&Pitos
    “Uma reportagem originada por outro veículo nunca é tão jornalisticamente valiosa como uma originada por nosso próprio jornal”.
    Philip Meyer, no livro A Ética no Jornalismo, Forense Universitária.

    ©Instituto Gutenberg

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