Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Sem unanimidade

    Imprensa mostra o desatino das quotas para negros

    Desta vez, a imprensa áulica não navegou de piloto automático no rio encachoeirado do governo. O sistema de quotas para negros no serviço público, que entra em vigor nesta semana, sido escrutinado com alguma profundidade pelos meios de comunicação. A Folha mostrou, por exemplo, na reportagem "Cota para negro esbarra em falta de critérios", de 16/12/2001, que o governo nem sabe o que está fazendo - e a questão é esta: não há critério decente para qualquer seleção baseada na cor da pele das pessoas.

    Eis um debate que galvanizaria os publicistas abolicionistas. O monarquista Joaquim Nabuco (1849-1910) teve idéia melhor, adequada à época, ao propor indenização para os negros alforriados, numa conjuntura adversa em que os senhores de escravos é queriam ser ressarcidos por perderem a mão-de-obra cativa - reivindicação que inspirou Rui Barbosa a incinerar os documentos da escravidão para impedir ações indenizatórias. O revolto José do Patrocínio (1883-1905), outro prócer da Abolição, talvez apoiasse o sistema de quotas no seu jornal A Cidade do Rio, tal qual gostaria de se ter ajoelhado aos pés da princesa Isabel para agradecer pela Lei Áurea. Mas é de duvidar que o grande Luís Gama (1830-1882) patrocinasse a idéia em sua vibrante coluna do Radical Paulistano - não ele, que tinha uma concepção avançada da isonomia republicana ao antever a Abolição como um passo para um país sem escravos nem rei.

    Demagógico, o governo de hoje forja uma política de suposta reparação histórica cujos beneficiados nem pode apontar. Ninguém, nem mesmo o IBGE, sabe por aproximação quantos negros tem o Brasil. É uma visão de casa-grande o percentual de 5,4% divulgado pelo serviço das estatísticas nacionais. Basta sair às ruas para ver que este algarismo é falso tal qual a nota de três reais - e tão duvidoso como a exagerada anotação de que 52% dos brasileiros são brancos. O problema se agravou a partir de 1980, quando o IBGE deixou a cargo dos recenseados a declaração da cor, e o número dos que se disseram negros caiu de 5,54% para 5,01% em 1991.

    Daí que o país racista, mas laboratório exemplar da mestiçagem, corre o risco de retroagir para uma discussão própria do apartheid (separação, em africâner) que vigorou na África do Sul de 1926 a 1991. Quem é negro? A classe dominante de lá teve de recorrer a exames genéticos para definir os que entrariam pela porta da frente e quem genufletiria para a entrada de serviço. No Brasil, isto seria uma patacoada sem limites, considerando que quase toda a população, incluindo a branca, segundo os estudos do biólogo Danilo Pena, tem genes de negros - e de índios também.

    É de prever, portanto, que o governo terá de criar um negrômetro para preencher a quota de 20% de funcionários públicos. A alva dançarina Carla Perez, de pai negro, faria os burocratas dançarem na boquinha da garrafa se se candidatasse a um cargo público declarando-se, com orgulho, "a loirinha mais neguinha do Brasil". Sem falar, é claro, do presidente Fernando Henrique Cardoso, que disse, na Sorbonne, ter "um pé na cozinha".

    No Ministério do Desenvolvimento Agrário, pioneiro na reserva de 20% de vagas para negros, o ministro Raul Jungman, que se acha pardo, garante que só serão beneficiados os negros. Quando, segundo a Folha, foi informado de que nas planilhas do IBGE os pretos são menos de 6% da população, exibiu a inconsistência da medida: "Se esses dados estiverem corretos precisamos repensar nossa política". Já o assessor especial da Secretaria dos Direitos Humanos, Marcos Pinta Gama, também citado pela Folha, diz que o sistema de cotas atenderá a todos os chamados afro-descendentes: "Utilizamos a expressão afro-descendentes para designar o que o IBGE chama de pretos e pardos". Aí vira verso novo para o samba do crioulo doido. Parda é a maioria esmagadora da população brasileira - embora nem todo pardo figure na linhagem politicamente correta dos afro-brasileiros, como os caboclos, originários de índios e brancos.

    O Jornal do Brasil ("Negros divergem sobre cotas", 16/12/2001) mostra que a medida é polêmica até entre os beneficiários. Uma pesquisa do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro revelou que, de 2.400 alunos e professores entrevistados sobre reserva de vagas nas instituições de ensino superior, a maioria de 57,4% rejeita a proposta. Entre os negros, 49,6% são contra.

    O ponto alto das críticas ao sistema de quotas para negros no serviço público está no artigo "Aviltante discriminação racial" , do colunista Mauro Chaves, do Estadão. "Essa política de "cotas raciais" pode desqualificar a imagem, profissional e intelectual, de servidores públicos, estudantes ou artistas negros - pois estes estarão sujeitos à maledicente insinuação de que não teriam obtido sucesso sem o favorecimento compulsório", afirma o jornalista, e conclui: "E, o pior é que, sob o pretexto de favorecer (materialmente) uma comunidade injustiçada, essa política lhe fere os valores maiores, do orgulho e da dignidade."
    19/12/2001

    Leitura recomendada
    Os sinos doram pela lei de quotas

    
    
    Ditos&Pitos
    "A criação de cotas é uma medida desleal. O que o estudante precisa, seja ele pobre, rico, negro ou branco, é de ensino fundamental de qualidade".
    Ana Paula Sousa, estusdante, no Jornal do Brasil, em 16/12/2001.

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