Comentário do Dia - Instituto Gutenberg

    Comentário do Dia

    A solidão da vitória

    Imprensa boicota o São Caetano

    Um dos motivos da excelente campanha do São Caetano no Campeonato Brasileiro talvez seja a ausência de torcida e de imprensa. O pequeno clube do ABC paulista lidera o torneio com 53 pontos ganhos, sete acima do Atlético do Paraná. Venceu 16 e empatou 5 dos 25 jogos que disputou, foi o que menos perdeu (apenas quatro derrotas), tem a melhor defesa (23 gols) e, sobretudo, baila no saudoso estilo ofensivo do futebol brasileiro. Para a elite da imprensa, no entanto, parece que o time participa do campeonato do Burundi. Quanto mais ganha, menos aparece no noticiário.

    No domingo, 18/11, o São Caetano operou nova proeza, ao derrotar o Grêmio, em Porto Alegre, por 2 a 1, consolidando a liderança. O time gaúcho estava invicto em 35 jogos e 11 meses em seu estádio - e a última derrota foi, justamente, para a equipe paulista. O trunfo não furou o boicote da imprensa ao São Caetano. Nesta segunda-feira, os grandes jornais de São Paulo só têm olhos para os clubes tradicionais. O Estadão destaca na 1ª página de seu caderno de Esportes, pela ordem de entrada em cena:

    Rodada consolida fracasso dos grandes;
    Palmeiras perde pela 7ª vez e só com milagre obtém vaga;
    São Paulo, a exceção, ganha o 4º jogo;
    Atlético-MG consegue façanha no Pacaembu.
    Todos são títulos em três linhas (com a exceção do primeiro, manchete da página). Enfim, vem o boicotado: São Caetano derruba o grêmio - tudo resumido numa nota de dois parágrafos e 143 palavras, 79 a menos do que na notícia "Figueirense garante vaga na Série B".

    A Folha segue o mesmo caminho - fala do Palmeiras, do Sport, do Flamengo, do Santos, do Coríntians, do São Paulo, da Portuguesa e, enfim, diz, em reportagem de duas colunas: "São Caetano derrota Grêmio fora de casa". Nenhum meio de comunicação se empenha em explicar a razão de o São Caetano vencer e vencer. Todos liquidam a fatura informando que o time joga ofensivamente, e se põem a dizer que no São Paulo o ambiente do técnico Nelsinho é ruim, que Marcelinho já faz água no Santos, que o goleiro Marcos criticou os companheiros do Palmeiras. Na Folha se pode ler a que talvez seja a grande explicação para tanto sucesso de um time que atua com brilho mas sem holofotes. Foi dada, no último parágrafo, pelo técnico Jair Picerni: "Estamos vencendo porque jogamos sem pressão".

    É provável. O time não tem contra si esse novo estilo neoliberal de torcida de mercado - que cobra resultados como um cliente reclama do fornecedor, e não hesita em tumultuar treinos, ameaçar jogadores e apedrejar instalações e veículos do clube que diz ser do coração. Outra razão para o sucesso do São Caetano talvez esteja no ambiente livre do jornalismo de leva-e-traz, baseado na fofoca e na cizânia, que caracteriza a imprensa esportiva brasileira. Eis um caso único no jornalismo mundial: o ônus da vitória é o anonimato.
    19/11/01

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