Sem nome nem exatidão Instituto Gutenberg

    Comentário do dia

    Sem nome nem exatidão

    Jornais de São Paulo omitem nome de acusada
    e endossam boletim de ocorrência

    Os dois grandes jornais de São Paulo noticiaram a prisão de uma mulher identificada apenas pelas iniciais - L.J.N na Folha, L.J.M no Estadão. É a típica notícia pitoresca: a acusada tem 72 anos de idade, uma folha corrida extensa na polícia, acabou de sair da prisão, e teve o azar de tentar apoderar-se da bolsa de uma escrivã policial, segundo a Folha, numa sapataria de um centro comercial no bairro paulistano do Tatuapé.

    A notícia tem dois problemas recorrentes na elite da imprensa brasileira: identificação parcial e endosso do boletim de ocorrência.

    1. A Folha, que deu manchete de seis colunas na página C3 ("Mulher de 72 anos é presa por furto de bolsas"), ainda teve o cuidado de passar o recibo e informar que não identificou completamente a acusada de furto por que a "ocorrência" foi mantida em sigilo por determinação da delegada Audrey Kanaan (Audrei Canaã no Estadão), "a pedido da L., que não quis ser identificada."

    A questão é que a polícia não tem o poder de dizer quais criminosos registrados em seus arquivos podem ou não ser identificados na imprensa. Investigações e processos judiciais podem ser mantidos em sigilo, para facilitar investigações ou garantir a privacidade de acusados, mas não o nome de uma ladra contumaz anotado no boletim de ocorrência. Além disso, é fora de propósito um jornal acatar o pedido de um preso para não revelar o nome dele. O Jornal do Brasil não embarcou nessa patacoada e publicou o nome inteiro da acusada: Laura José Nistrin.

    2 Os dois jornais paulistas repetem, nessas "reportagens", um velho erro que estava em desuso, o de copiar o boletim de ocorrência e descrever cenas como se o redator da notícia tivesse presenciado o fato.

    O Estadão ("Mulher de 72 anos é pega roubando em shopping") comete o erro em trechos como este: "Por volta das 18h30 de ontem, ela entrou em uma loja da C&A, sentou-se em um banco e pediu para a vendedora que lhe mostrasse um par de sapatos. A funcionária pública, M.A.L., de 40 anos, residente na Mooca, estava de costas para a ladra, que tomou a bolsa da vítima e saiu. Ao notar que tinha sido roubada, ela correu até a porta da loja e viu Laura com sua bolsa nas mãos. A própria funcionária pública dominou a idosa ladra e acionou os seguranças do shopping, que chamaram a Polícia Militar." A Folha: "Anteontem à tarde, L. passeava pelo shopping sem levantar suspeitas, vestindo uma calça vinho e uma blusa florida.
    Na loja de calçados Romão, a escrivã do Decap (Departamento de Polícia Judiciária na Capital) M.A.L., 40, experimentava um par de sapatos quando L. sentou na poltrona ao lado, fingindo esperar uma vendedora. Logo depois, L. pegou a bolsa da escrivã, levantou-se e saiu.
    A policial foi atrás da mulher, mas, como o shopping estava cheio, ainda levou alguns minutos para alcançá-la. Ao ser abordada, L. disse apenas que havia "se enganado", desculpou-se e devolveu a bolsa para a escrivã." Segundo o jornal, a escrivã seguiu a suspeita e a flagrou surripiando bolsas noutra sapataria.

    Além disso, há, como se pode notar, mais de uma versão para tudo nas duas "reportagens" - dos nomes ao crime.
    16/11/01

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