Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Seqüestro de informações

    A imprensa não honra seu papel na
    cobertura sobre o capital estrangeiro

    Discreto, quase envergonhado, o noticiário da imprensa de elite sobre sua abertura ao capital estrangeiro mostra como a mídia pode cobrir de forma unicelular um assunto em que viceja larga biodiversidade de opiniões. Conseguiu a proeza de transformar em notícia o patrocínio que ela própria dava ao projeto de seu interesse, como na reportagem Apoio ao capital estrangeiro na mídia . Apenas o proveito comercial da própria imprensa apareceu no espelho, em notícias e editoriais - com exceções microscópicas que talvez nem tenham pujança para confirmar a regra. Na Folha, e sempre na Folha, foi registrada uma solitária crítica do presidenciável Ciro Gomes, um protesto contundente do colunista Roberto Mangabeira Unger e dois artigos do articulista Janio de Freitas, ambos no estilo genérico-enigmático que deslustra os textos dos que escrevem sobre imprensa na imprensa, ou seja, fala-se muito e não se identifica ninguém.

    Nem mesmo os debates no Congresso foram relatados nas reportagens dos jornais. O máximo que se noticiava era que a oposição tinha "resistências à medida". Nas últimas duas semanas, a oposição solitária do PDT e discursos contra a corrente, como o do deputado José Roberto Batochio, integrante do Conselho Editorial do boletim do Instituto Gutenberg, sofreram uma morte civil, condenados ao ineditismo que contrastou com a divulgação à larga do lóbi exercido pelos executivos da mídia e dos que desempenharam o papel duplo de empresário-legislador em causa própria, a começar do relator do projeto, Henrique Alves (PMDB-RN), cuja família é dona de um grupo de comunicação no Rio Grande do Norte. Apropriadamente, o deputado comemorou a aprovação do projeto com a frase "A partir de agora, nossas empresas vão se capitalizar, se modernizar, aumentar o mercado de trabalho e melhorar a qualificação profissional." (Folha,12/12/2001).

    A imprensa, como qualquer outro setor industrial, tem o direito de defender seus interesses comerciais e civis no Congresso. Mas tem o dever de, no noticiário, informar o público acerca das divergências que esses interesses provocam. Em contrapartida, quando entra na pauta do parlamento o projeto da nova Lei de Imprensa, Deus e o mundo são entrevistados pelos jornais para dar opinião - desde que contra os aspectos do projeto que sejam do desagrado dos meios de comunicação. Artigos "em defesa da liberdade" entram nos jornais como originais de banqueiros: vão diretamente para a gráfica.

    A pressão é tanta que desde 1991 o Congresso não vota a nova lei, enquanto que a emenda à Constituição para permitir o ingresso do capital estrangeiro avançou mais rapidamente. De tramitação mais complexa, pois exige a aprovação de dois terços dos parlamentares em duas votações em cada casa legislativa, foi apresentada em 1995, pelo deputado Aloísio Nunes Ferreira, hoje ministro da Justiça, dormitou seis anos até ser turbinada pela crise que afeta a mídia e a faz buscar no exterior capital barato para financiar seu déficit causado pela queda de circulação ou audiência e publicidade.
    13/12/2001

    Correção: a emenda foi apresentada pelo deputado Aloísio Nunes em 1997. De 1995 é a do deputado Laprovita Vieira, que autorizava o controle das empresas jornalísticas e de radiodifusão por pessoas jurídicas.

    Leitura recomendada
    O capital estrangeiro na imprensa brasileira, de Genival Rabelo, Rio, Civilização Brasileira, 1966

    
    
    Ditos&Pitos
    "O acontecimento mais importante ocorrido no Brasil nos últimos meses, carregado de consequências para o futuro, mal entrou no noticiário dos jornais e das televisões".
    Roberto Mangabeira Unger, no artigo "A mídia à venda", na Folha, 11/12/2201

    ©Instituto Gutenberg

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