Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Alvo errado

    Imprensa começa a reconhecer erro
    na supervalorização militar do Talibão

    A revista Veja foi a primeira publicação importante a fazer a autocrítica do mito bélico do Talibão. Na edição 1729 (05/12/2001), o maior semanário de notícias do Brasil acusou o erro de pauta que pôs toda a imprensa no rumo errado da cobertura propriamente militar da agressão dos Estados Unidos ao povo afegane. "Onde estão os ferozes guerreiros do Afeganistão?", perguntou a revista sobre a lenda de que a guerra não seria tão fácil para os ocidentais. "A imprensa, Veja inclusive, deu curso a essa versão", registrou a revista, observando, como repete na edição desta semana, que a propalada resistência dos soldados de turbante, provada na luta com os mongóis, os ingleses e os soviéticos, era uma tempestade de areia.

    Em dois meses de ataques, os Estados Unidos devastaram o precário exército inimigo, dominaram o país miserável, apearam os fanáticos religiosos do poder e, fiéis à própria previsão de que a guerra seria longa, agora apenas caçam os líderes do terror religioso, Osama bin Laden e o molá Mohamed Omar.

    Aos poucos, a imprensa de elite vai registrando, no noticiário, o monumental erro de exagerar o tirocínio militar dos guerreiros talibães. Toda aquela conversa sibilante de analistas militares, baseada na dificuldade da "guerra assimétrica", revelou-se pífia, capaz de minar os edifícios da mídia como um avião arremessado nas torres do World Trade Center em 11 de setembro. Mais uma vez, a História prova que o terrorismo como tática militar não resiste à guerra convencional. Tem valor bélico apenas como auxiliar da política nas guerras de libertação nacional, sobretudo para desestabilizar um exército invasor, e precisa enraizar-se no povo, como ocorreu no Vietnã - tudo o que os tiranos do Talibão jamais tiveram.

    Batendo em retirada, para as cavernas que simbolizam a regressão do ser humano, os fanáticos do Talibão deixam ainda mais para trás os tempos heróicos dos combates corpo a corpo com os ingleses ou da resistência guerrilheira aos soviéticos, os quais, diga-se, entraram numa guerra de ocupação para remoção do governo afegane e não visavam a destruição massiva do inimigo como fazem os americanos. Jornalistas tidos como peritos no assunto, a exemplo do inglês Robert Fisk (por ironia, quase linchado no Paquistão)disseram que "se há um país - chamá-lo de nação seria equívoco - que o Ocidente deveria evitar em termos militares é essa terra tribal em que Osama bin Laden mantém seu santuário." Generais russos exaltaram a ferocidade e a maestria militar do adversário, mas, sabemos agora, esta foi uma forma de valorizar a derrota do garboso Exército Vermelho, que nos anos 80 enterrou no deserto afegane a legenda de imbatível conquistada na memorável vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial.

    Voltada para o passado, a mídia muitas vezes negaceou um fato jornalístico essencial: o aspecto convencional desta guerra do Afeganistão é a precisão tecnológica. Do avião não tripulado Predator, que mapeia o campo de batalha, às bombas JDMAS, que perseguem o alvo como uma gaivota fisga o peixe na linha do mar, o arsenal bélico utilizado no Afeganistão distancia-se dos conflitos de Kosovo e do Golfo Pérsico como a linha da inovação separou a Primeira da Segunda Grande Guerra. E foi erro jornalístico mesmo - não um sinal de simpatia pelo lado afegão, pois a imprensa brasileira é tão parcial que só falta se alistar para reforçar as tropas americanas.

    Uma reportagem de John Barry, do semanário americano Newsweek, reproduzida no Estadão (Novos militares, nova guerra), mostra que o sucesso da campanha militar reside exatamente no inverso do que a imprensa destacou quanto à precisão dos ataques. A bomba lançada sobre o prédio da Cruz Vermelha em Cabul obteve muita repercussão por constituir um erro e mostrar, duplamente, a ferocidade do ataque americano. Mas foi uma exceção que imprimiu nos leitores a idéia de que o "fogo amigo" é regra neste conflito.

    Ainda no dia 06/10/2001, o Jornal do Brasil entronizava na 1ª página: "´Bomba inteligente` mata 3 americanos" - relatando com visível ironia um fiasco episódico. Confirmou o que John Barry ressaltou em seu artigo: "A tecnologia não está propriamente isenta de erro, e bombardeiros cometem enganos. Eles acertam um prédio da Cruz Vermelha em Cabul mais de uma vez, além de várias casas. Mas essas falhas são agora tão raras que até dão manchetes."
    10/12/2001

    Leitura recomendada
    Novos militares, nova guerra

    
    

    ©Instituto Gutenberg

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