Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    De erros e crimes

    Jornal ilude leitor com correções banais,
    e ANJ promove crime ambiental

    A seção Erramos da Folha de S.Paulo é uma das mais positivas iniciativas da imprensa brasileira nos últimos anos - embora muito ridicularizada e pouco imitada. No entanto, poderia ser aperfeiçoada com o registro de erros de método entre o cipoal de correções banais. E há dias em que a seção envereda por um refinamento que faz jus àquela anedota do sujeito que engole um elefante mas se engasga com um mosquito.

    Na edição de 04/12/2001, cintila a nota "Por erro da Redação, o verbo "haver" foi conjugado incorretamente em um trecho do texto "Está tudo aqui" (Ilustrada, pág. E1, 1º/12). O correto é "quando havia vários textos de um autor", e não "quando haviam vários textos de um autor". Um jornal que sugere tanto zelo com a exatidão das informações que publica dá a impressão de que não deixa impune nada mais grave que um tropeço de conjugação verbal. É pura demagogia para iludir o leitor.

    Uma leitura apressada indica que, na mesma edição em que saiu esta pérola da acurácia, liam-se coisas do tipo:
    Título: "Acordo tenta adiar racha dentro do PMDB" - como se fosse possível haver fora do PMBD um racha no PMDB.
    No texto "Empreiteiro diz que empresa doou R$ 1,5 mi para campanha malufista", o jornal menciona um incerto "esquema Paubrasil". A empresa acusada de arrecadar dinheiro para Paulo Maluf chama-se Pau Brasil. No máximo, para usar a grafia correta, o jornal poderia ter arredondado para Pau-Brasil.
    No texto "Antraz é igual ao feito em programa militar" se diz que "Uma dose letal de antraz tem 10 mil esporos. Em teoria, 1 g poderia causar 100 milhões de mortes." Três gramas exterminariam, portanto, toda a população dos Estados Unidos e a da Argentina. Nenhum cientista avaliza tamanho exagero.

    Na nota "Aeroportos revistam para evitar saída de dólares" não só faltou dizer quem é revistado) como, no textinho, lê-se isto: "A Alfândega vai revistar quem viajar ao exterior para comprovar que não leva mais de US$ 1.000 em seus bolsos."
    Em "Câmara deve aprovar hoje alteração da CLT" escreveu-se "infra-constitucional" - um errinho do porte de "haviam vários..".
    No mesmo quadro, lê-se :"A favor 255 x Contra 206 o projeto foi o resultado do placar na votação eletrônica anulada na semana passada na Câmara dos Deputados". Não faz sentido.
    Outro título enganador: "Governo distribuirá 47,5 milhões de livros gratuitos para a rende pública". Os "livros gratuitos" renderam R$ 40 milhões às editoras.
    O ombudsman Bernardo Ajzenberg apontou outros erros na sua crítica diária.
    Nada disso foi corrigido na edição seguinte, embora o quadro sobre a mudança na legislação trabalhista traga a forma correta infraconstitucional. Na edição de hoje, aliás, destaca-se outro título de composição infantil, sobre o aumento da quota de energia para que os cariocas possam ligar o ar-condicionado no verão: "Nova regra vai refrescar calor do Rio...". Daí se conclui que em São Paulo um aquecedor esquenta o frio.

    A Associação Nacional de Jornais (ANJ) publica um novo anúncio da campanha "todo mundo tem um bom motivo para anunciar em classificados". Conta a história de uma mulher solitária que decidiu consolar-se com um "bicho de estimação". Comprou um papagaio, "que o vendedor me garantiu ser um santo, que não sabia falar um palavrão sequer". Mas o louro deu a varar as madrugadas entoando "músicas bregas" de Roberta Miranda. Arrependida, ela quer se livrar do tagarela e a ANJ, associação dos cem maiores e mais importantes jornais do Brasl, sugere que o melhor caminho é vender "o infeliz" pelos classificados. Afinal, diz o anúncio, "Em cada 10 pessoas que anunciam, 7 fecham negócio".

    Se fosse obra, digamos, de um vereador de Catolé do Rocha, a peça já estaria crucificada em algum desses meios de comunicação que endurecem o dedo na direção de Deus e o mundo. Segundo a lei de proteção ambiental (n.º 9.605, de 1998), comete crime "quem vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou depósito, utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre...". A pena é de seis meses a um ano de detenção, e multa.

    Filiados à ANJ não pouparam "o animal" Edmundo quando, em 1999, o jogador de futebol deu cerveja a um macaco numa festa infantil (Edmundo pode ser processado por brincadeira com macaco). O Ministério Público e o Ibama mais que depressa caíram em cima do polêmico artilheiro - com o mesmo rigor com que a polícia do Distrito Federal prendeu, no ano passado, o agricultor Josias Francisco dos Anjos, por ter raspado um tronco de árvore para fazer chá para a mulher doente.
    05/12/2001

    ©Instituto Gutenberg

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