Comentário do Dia -
Centro de Estudos da Imprensa

    Comentário do Dia

    Debaixo do tapete

    A dívida do País é um assunto
    escondido pelos grandes jornais

    Nem se houvesse censura, o assunto dívida externa estaria tão sumido do noticiário. Grande tema nacional por excelência, é citado incidentalmente pelos jornais quando obrigados a tratar de um tema correlato, como a aprovação do orçamento da União pelo Congresso. Alguns dizem que o problema é grande, mas não quanto - a exemplo da Folha, que na reportagem "Congresso eleva investimentos em 49%", de 02/01/2002, assinada por Sílvia Mugnatto, menciona:
    "As despesas com os juros constituem o item que mais pesa no Orçamento da União, seguido dos gastos com o pagamento dos salários de funcionalismo". Abaixo, saiu, ao menos, o gasto com pessoal: R$69, 2 bilhões.

    Se houvesse censura, um leitor desconfiado concluiria que estava proibida a divulgação do número quilométrico. Afora o erro jornalístico de apontar o maior sem revelar-lhe o tamanho, esse tipo de abordagem demonstra o desmazelo militante com que a elite da imprensa trata dos assuntos que realmente importam. Seguramente, há uma fração do distinto público interessada em assuntos menos banais que o torrencial "Casa dos Artistas". Ele tem o direito de saber que, de um total de R$ 650,4 bilhões destinados às despesas do País em 2002, nada menos que R$ 278,1 bilhões serão consumidos na amortização e mais R$ 58,4 bilhões nos juros da dívida. As duas contas somam R$ 336,5 bilhões. Como se pode notar, é mais da metade do dinheiro a ser desembolsado pela União no ano.

    Do rol de reportagens e arremedos sobre a aprovação do orçamento, no apagar das luzes do ano, os números da dívida apareceram apenas num quadro do Estadão, ilustrando o texto "Orçamento é aprovado, mas ainda deve mudar" , de 29/12/2201. A reportagem, assinada por Nélson Breve e João Domingos, não dedica uma só linha à dívida e a seus juros astronômicos, mas, ainda assim, foi, de longe, a melhor peça jornalística publicada sobre as contas orçamentátrias, não só no Estadão como nos concorrentes. Mostrou como o Congresso melhorou o orçamento, fixando o salário mímino em R$ 200 e banindo receitas imaginárias enfiadas pelo Executivo, a exemplo de R$ 1,4 bilhão creditados à contribuição previdenciária dos servidores inativos, que, para pasmo de qualquer contabilista, ainda depende de aprovação do Parlamento.
    Em geral, os grandes jornais se preocuparam em desempenhar o áulico papel de assessores do Executivo: trataram a versão original preparada pelo Planalto como se fosse o texto sagrado que Deus ditou a Moisés, e dedicaram páginas e páginas às profanas emendas dos deputados e senadores. Ao final, desviaram a atenção do ralo por onde vaza o dinheiro do País.
    02/01/2002

    Leitura recomendada
    O Tribunal da Dívida Externa

    
    

    ©Instituto Gutenberg

    Índice Geral   Comentários anteriores   igutenberg@igutenberg.org









Leia mais
PIB dos jornais não serve ao leitor