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Lições do caso Boechat

O que aprender sobre grampos e fontes

O colunista Ricardo Boechat apareceu numa reportagem da revista Veja (“Os bastidores de uma guerra”, 27/6) baseada em gravações telefônicas clandestinas. A revista apresentou o jornalista como a serviço do empresário Nelson Tanure, sócio majoritário do Jornal do Brasil, concorrente do Globo. Tanure e seu assessor Paulo Marinho pediam que Boechat publicasse no Globo notícias deles, numa querela que mantêm, a serviço da empresa canadense TIW, com o Banco Opportuny. A TIW e o Opportunity são sócios e disputam o controle de duas empresas de telefonia no Brasil, Telemig Celular e Tele Norte Celular. Grampos instalados nos telefones de Tanure e Marinho registraram que em abril, Paulo Marinho pediu que Boechat publicasse no Globo uma reportagem sobre uma suposta manobra que o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, preparava nas telefônicas. O resultado foi o texto “Opportunity quer tirar poder de voto dos fundos”.

 O próprio colunista informou, num artigo para o Jornal do Brasil, (“A notícia oculta”, 17/07) que Marinho mandou-lhe um fax que “parecia um manifesto estudantil, passional e interminável. Reescrevi as informações, avisei o jornal (estava de férias em Paris) , de onde também contribuí para uma reportagem sobre a Receita Federal) e despachei a matéria para a redação. Em seguida, liguei para Marinho, li o texto da notícia, despedi-me e esqueci o assunto”.

O Globo despediu o colunista sem explicar o motivo aos leitores, mas, a julgar pela reportagem de Veja, estava claro que Boechat mantinha relações por demais estreitas com um concorrente e seus negócios fora do jornalismo. Tanto que o colunista, no artigo em que estreou no JB, foi taxativo: “Eu mereci ser demitido”.

 

O grampo. Demorou, mas, enfim, um dono de jornal e um jornalista importante foram vítimas do artifício que a imprensa do Brasil tanto usa: o grampo de telefone, e a posterior divulgação, ilegal, de conversas de terceiros. Já foi exaustivamente demonstrado neste boletim o caráter criminoso da escuta telefônica não autorizada pela Justiça, e, quando autorizada, da divulgação do que deveria correr em segredo judicial. Como a imprensa e os jornalistas brasileiros gozam de impunidade para cometer crimes, tudo fica por isso mesmo: na maioria dos casos, delegados, promotores, procuradores e juízes intimidam-se e deixam o crime correr solto. Aberto o precedente, os jornalistas que se cuidem: escutas clandestinas em telefones de diretores de redação, colunistas e chefes de sucursal em Brasília poderão trazer revelações mais emocionantes que os segredos dos políticos.  

Leitura para a fonte – O episódio Boechat pode prejudicar uma prática que estava em crescimento no Brasil: a leitura, ou ao menos a confirmação de declarações transcritas, para a fonte que passou as informações. Ler para a fonte o que será publicado em nome dela, entre aspas, é um zelo a ser tomado. Não foi o caso estrito do telefonema de Boechat para Marinho, que nem era citado no texto. Mas é um cuidado que protege todos – fontes, jornalista, jornal e o leitor – de erros de informação, equívocos de interpretação, impropriedades de transcrições. Quando implantou a experiência na Zero Hora, em 1996, o editor Augusto Nunes ficou satisfeito com o resultado: “Ninguém cortou nada. Ao contrário, acrescentam coisas que esclarecem o assunto ou enriquecem o que foi dito”. Leia o artigo Mostre à fonte e imprima.

Jornalista não é dono nem síndico das declarações alheias. Nem é um jurado que ouve as partes e lavra uma sentença na forma de notícia. A síntese, e mesmo a percepção dos fatos, pode variar do repórter para a fonte, e as reclamações nas seções de cartas atestam que este é um problema subterrâneo que volta e meia vem à tona. Ademais, não cabe exclusivamente ao repórter decidir o que é importante: o entrevistado foi ouvido justamente porque tem algo a dizer, e informação será atribuída a ele. Se botar entre aspas, é maior a responsabilidade do repórter.  Por tudo isso, a leitura prévia dá a oportunidade para que duas pessoas associadas na divulgação de uma notícia calibrem a precisão que beneficiará o público.

A leitura prévia da reportagem não é um princípio, norma inflexível que engessaria o jornalismo. É uma regra, baseada no bom senso, sempre visando à acurácia, a ser seguida sobretudo nos assuntos técnicos espinhosos. Edições drásticas, que às vezes mutilam o pensamento da fonte, também pedem um cotejo final. Tomem-se, por exemplo, as grandes entrevistas com pergunta e resposta. Em geral, o entrevistado fala muito mais do que é publicado, e sai um resumo do que disse. Naturalmente, a maioria das declarações precisa ser editada, para adequar a linguagem falada à escrita, escoimando-a das pausas, gaguejos, idas e vindas típicas da expressão verbal. Se a edição for drástica e desastrada, porém, revelará mais o pensamento de quem editou do que o de quem falou.

Quando o entrevistado reclama, e tem flagrante razão, é que os jornais demonstram ao público como retalham o pensamento alheio. Foi o caso do compositor Caetano Veloso com o Jornal da Tarde. Duas perguntas e duas respostas, publicadas na edição de 27/06:

Repórter – O que você tem escutado de melhor e de pior?

Caetano Veloso – Um sujeito educado e maduro deve agir como Chico Buarque; não dar palpite sobre o trabalho dos outros. Como não sou educado ou maduro, falo mesmo. Shows que adorei foram do Nação Zumbi, o do Tom Zé e o do Lulu Santos. O disco da Rebecca da Mata é muito bacana.

Repórter – E de ruim?

Caetano - Quer que eu diga mesmo? Bom, odeio esta música que o Zeca Baleiro fez que fala de lenha, sei lá o que... (Lenha). A Simone gravou e ficou mais horrível. Ele cantando é suportável, mas com ela é horrendo. Pronto, falei.

Agora, leia a resposta na íntegra:

Caetano Veloso- Tem coisas que eu ouço e não gosto. Posso lhe dizer. Eu gosto do Zeca Baleiro, eu adoro a música que se chama Bandeira, adoro aquilo, ele canta bem. Mas eu odeio esta música que fala ´a lenha, não sei o quê...´ que Simone gravou e ele também gravou (Caetano canta ´o que quer dizer, eu não sei dizer, o que quer dizer, o que eu vou dizer...´) Qual é o nome desta música? E a Simone eu acho muito boa cantora. Quer ver uma injustiça que aconteceu? O disco da Simone com músicas do Martinho da Vila eu acho divino, divino, ninguém disse nada, ninguém disse nada, entendeu? Ficou, finge que não é nada. Aquilo é divino. O repertório dele fez bem a ela - aquele disco é de eu botar em casa, sozinho de tanto que eu gostei - e ela fez bem ao repertório dele. Ela deu clareza àquelas composições, é lindo. E foi um projeto pensado pela gravadora de uma cantora que cantaria um autor, combinado, não sei como foi, mas é lindo, é maravilhoso o resultado. E ela é uma grande cantora, muito boa, eu adoro. Uma voz muito bonita e que faz muito bem.

E este disco é um grande disco. Mas ela cantando Lenha..., a gravação do Zeca é mais... é uma música chata, mas é mais agüentável. Mas a da Simone é insuportável. Então, tô dizendo isso porque, porque eu não tenho educação. Ao mesmo tempo estou dizendo que amo estas pessoas. Por mil outras coisas que elas são e fazem e coisas, como no caso do disco da Simone, que não foram sequer reconhecidas pela crítica. Imerecidamente, porque foi um grande disco.

Mas essas coisas às vezes também mudam. Por isso que o Chico Buarque está certo de ficar calado. Quando saiu o disco Luz, do Djavan, que foi um dos discos que eu mais adorei na minha vida, eu adoro o Djavan, saiu o disco e eu achei o disco o máximo. Mas uma música que chama, é..., Pétala, eu não gostei na época e disse isso a Djavan. Mas passou um tempo e eu me apaixonei pela música. Então estou dizendo que estas coisas mudam.

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