Invasão de privacidade

O caso Vera Fischer
 
Foto: Divulgação
O copioso e minucioso noticiário sobre a vida conjugal e a ficha médica da atriz Vera Fischer suscita reflexão acerca da privacidade de pessoas públicas. A estrela da TV reaparece na imprensa nobre no papel da musa desequilibrada que briga com o ex-marido, é acusada de agredir a babá a tesouradas, ataca jornalistas e é internada numa clínica psiquiátrica. Foi mais um momento difícil, doloroso para qualquer pessoa, na trajetória de uma talentosa e altiva estrela cuja biografia é escrita com impudência pela mídia. A questão é: a imprensa tem o direito de escarafunchar a intimidade e importunar a atriz em hospitais num momento caótico para ela e familiares, incluindo seus filhos de 17 e três anos? As pessoas públicas têm ou não uma faixa de privacidade que a mídia deve respeitar?

Os grandes jornais (todos eles, mas em grau menor o Estadão) e revistas ilustradas como Amiga, Caras e Manchete fizeram, na entressafra noticiosa da última quinzena do ano, o clássico sensacionalismo com o drama pessoal de Vera Fischer. O Jornal do Brasil, num exemplo coletivo, cobriu o episódio com a diagramação garrafal dada aos seqüestros de pessoas no Rio. Caras não poupou os filhos, estampados em seis fotos.

Manchete adornou sua reportagem com 18 fotos (algumas inevitavelmente sensuais, em se tratando de Vera Fischer), numa demonstração de que o infortúnio da personagem não aplaca a mixoscopia dos editores. IstoÉ fez troça com o título “Vera mãos de tesoura” para duas páginas baseadas na entrevista (45 jornalistas presentes) que ela convocara para negar que atacara a babá Sandra Costa. A revista registrou o que chamou de “desequilíbrio emocional” da atriz e o auto-elogio de que aos 44 anos acha-se bonita e poderosa e que gostaria de ver a consistência física das “jornalistas bonitinhas” na idade dela: “Vão cair de b...”. IstoÉ registrou a grosseria e anexou a sua: “Mas não deixou o bumbum à mostra para eventual checagem”. Se a atriz estava “desequilibrada emocionalmente”, a imprensa parecia descomedida eticamente. Ética no caso era comedimento e compaixão (Aurélio: “Pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem”, antônimo da rapinagem jornalística).

A invasão de privacidade foi abastecida pelo círculo opaco de familiares e médicos que orbitam a estrela. Tanto os ex-maridos Perry Salles e Felipe Camargo, como o médico Mário Biscaia, tiveram espaço generoso para resplandecer em indiscreta falação sobre os desatinos da atriz . O psiquiatra Biscaia rendeu uma página inteira no JB (24/12), com o título “Vera Fischer tem salvação”. A entrevista automaticamente custará ao Dr. Biscaia um processo no Conselho de Medicina, visto que, segundo o código de ética da profissão, um médico não deve discutir o estado de seus pacientes pelos jornais.

Na imprensa, a questão fica confinada aos manuais de redação. O que se leu e viu foi o oposto do chorrilho de boas intenções impresso nos código de conduta. O Manual de Redação do Globo é o que melhor trata do assunto, mas, no caso de Vera, O Globo foi dos grandes diários aquele que pior tratou o assunto. No verbete Respeito à pessoa, em Questões Éticas, o manual diz: “Cidadãos que têm vida pública perdem, por isso, pelo menos parte do direito à privacidade (...) Exemplo clássico: se o ministro tem uma amante, isso é problema dele; se o ministro tem uma amante sócia de firma que faz negócios com o ministério, isso é notícia”. Se fosse aplicado, o verbete evitaria as reportagens enormes sobre a internação de Vera Fischer. O jornal esbaldou-se em manchetes diárias de seis colunas, algumas artificiais, forçadas, onde os fatos desautorizavam tamanha centimetragem, como a de 19/12: “Vera escolherá o local de sua internação”. O Globo até mandou um “enviado especial” à casa de saúde Villa Guadalupe, em Buenos Aires, onde a atriz se internou depois de passar três dias no Núcleo Integrado de Psiquiatria (NIP), no Rio.

A correspondência internacional durou dois dias, e depois o jornal cometeu o erro oposto: ignorou Vera Fischer; em quatro edições não deu sequer uma notinha de coluna sobre o estado da personagem que dias antes rendia manchetes de página. Em contraste, a Folha e o Estadão publicavam notícias antagônicas. No dia 28, a Folha informou: “Vera Fischer passará o Réveillon internada” [na Argentina], e o Estadão: “Vera Fischer deve voltar ao Brasil no fim de semana”. Se era uma loteria, o Estadão acertou.

A crise de Vera Fischer era notícia e, principalmente, merecia tanto espaço? Um bom mas não único critério para edição de notícias sobre personalidades é o do crime de ação pública. Se há um delito que a polícia é obrigada a investigar, sem depender de queixa, como homicídio, roubo, lesões corporais, etc. a notícia é obrigatória. Se Vera Fischer foi acusada de ferir a empregada (e há uma queixa da babá Sandra Costa na delegacia), era dever da imprensa noticiar. Se a atriz interna-se numa clínica para desintoxicação, isso pode ser uma nota na coluna Gente, para informação geral e sobretudo dos fãs que velam pela saúde dela, como fez a revista Veja, com elegância, na seção Datas.

Cobrir (noticiário sistemático, investigativo ou especulativo) a internação de Vera como se ela fosse um PC Farias do showbiz é impiedosa falta de ética. O assédio dos jornalistas foi tão desproporcional que, no dia 19/12, quando a atriz saiu do Rio para Buenos Aires, a clínica NIP pôs uma enfermeira loura num carro para despistar a imprensa. A notícia do Globo no dia seguinte: “Planos de despiste, perseguições espetaculares, um vôo de helicóptero e, finalmente, a fuga para um país vizinho”. Fuga...

O título dessa crônica policial foi “Vera Fischer deixa o Brasil em operação cinematográfica”. Mas não era o relato da evasão de um criminoso acuado, e sim a cena de uma atriz sedada fazendo malabarismos para driblar “perseguições espetaculares” de jornalistas. Num hospital, o plantão transilvânico dos repórteres viola o espaço privado, importuna e obriga as pessoas a mudarem rotinas. Se fontes não querem fotos, como Vera não quis, paciência: não é caso de interesse público que a imprensa tem a obrigação de investigar. Quem paga a conta de Vera Fischer é a TV Globo e não o Ministério da Beleza.

A alegação clássica é que o público quer saber. (Uma das últimas pesquisas do Globo coincidiu com uma das brigas de Vera com o marido, Felipe Camargo, e os leitores pediram mais notícias sobre o caso.) Claro que o público consome escândalos desde que Caim matou Abel. Em Roma, no século I, os boletins afixados no Fórum destacavam dois assuntos: crimes e divórcios. Uma pesquisa com o primeiro número de cada jornal provavelmente mostrará que todos trouxeram o que se chama nas redações de “um bom crime” e muita fofoca. O primeiro jornal impresso na América, o Publick Ocurrences, estreou em Boston, em 1690, com uma história de suicídio num estábulo e o mexerico de que o rei da França “costumava deitar-se com a esposa de seu filho”. (Os tempos eram bicudos: o governo de Massachusetts fechou jornal.)

O interesse jornalístico é irmão siamês do sensacional, do inusitado, do diferente — sobretudo quando isso ocorre na vida de pessoas famosas. O público devora escândalos e intimidades. Essas mercadorias não se regem, porém, pela lei da oferta e da procura. Como no tráfico de drogas, no jornalismo a procura não dá legitimidade à oferta. Lição que alguns manuais de redação já assimilaram distingue o que é de Deus do que é de César: Notícia de interesse público não se confunde com notícia de interesse do público. O público tem o direito de ser informado sobre quase tudo, e esse mandato a sociedade dá à imprensa: agir em nome dele e até importunar pessoas (sobretudo autoridades) para informar o público. A diferença é que a curiosidade do público, às vezes mórbida e sórdida, não tem limites, mas a imprensa deve ter. A sociedade tem o direito de saber se um ator não paga os impostos? A resposta é sim, pois esse é um tema de interesse público. O público tem o direito de ser informado dos namorados de um cantor, como fez recentemente a revista Interview? A resposta é não, pois esse é o espaço encantado da pessoa, cuja inviolabilidade é assegurada pela Constituição.

Se um entrevistado conta segredos e fanfarrices, o problema é dele — mas note-se que não é porque muitos artistas, manequins e socialites escancarar suas intimidades que a imprensa pode arrombar a alcova de quem está pelo menos com a boca fechada. Se não há fato de interesse público, nem transgressão a esclarecer, o cidadão tem inclusive o direito de recorrer à Justiça para proteger sua imagem do sensacionalismo e da exploração da desventura alheia a que volta e meia se entrega a imprensa. “Com poucas exceções”, ensina o estudioso Theodore L. Glasser, professor de Jornalismo na Universidade de Minnesota (EUA), “a liberdade de imprensa e outras garantias constitucionais somente se aplicam à conduta na esfera pública, ou seja, elas somente se aplicam a indivíduos cuja conduta possa estar sujeita ao que o judiciário chama de ação do Estado”. (Jornalismo versus Privacidade, Ed Nórdica (021/284-8848.)
Ninguém pode pleitear um suposto direito de ser informado sobre a intimidade de outrem, exceto em episódio onde ocorra a intervenção do Estado — com as exceções de praxe, como sigilo fiscal —, e ainda assim com respeito, bomsenso e desprezo pelos detalhes indecorosos. O que para um jornalista é inócuo ou obrigação ditada pelo manual da casa — divulgar a idade das pessoas, num exemplo banal — pode ser uma afronta a uma cidadã que considere sua idade um valor privado.

Mesmo as autoridades — pessoas públicas com obrigação de prestar contas de seus atos, porque são sustentadas pelos contribuintes — têm um nicho privado que a mídia não pode violar. Uma hipótese: imagine-se que um presidenciável tem um filho fora do casamento; isso deve ser contado ao público? Um argumento a favor da divulgação é o de que o público tem o direito de saber tudo sobre um virtual presidente da República. Ainda assim, resposta é não, mesmo que o candidato seja eleito.

O fato só merece ser noticiado se um dos envolvidos gerar notícia — por exemplo, pedido de reconhecimento de paternidade, ação de alimentos, tráfico de influência ou se o presidente desafiar a sorte discursando no Clube das Mães Solteiras contra homens que não assumem filhos fora do casamento. (Registre-se que nas campanhas de 1989 e 94, o Jornal do Brasil e a revista Playboy revelaram que dois presidenciáveis tinham filhos extraconjugais, e, em 89, a revelação teve grande repercussão na campanha eleitoral.)

A faixa privativa é ainda mais extensa no dia-a-dia de pessoas famosas que vivem do e para público, mas não precisam prestar contas do que fazem, como os artistas. Faça o teste: você pode adorar reportagens sobre a intimidade de Vera Fischer, mas note como é errado dizer: “eu tenho o direito de ser informado sobre a intimidade de Vera Fischer”. O teste deveria ser feito pela imprensa que cobre dramas pessoais como o da atriz: vamos definir o que o leitor tem o direito de saber, antes de sairmos às ruas para violar a intimidade das pessoas? Jornais e jornalistas não são garis, embora, como alertou um ex-editor executivo do New York Times, Abe Rosenthal, muitos se dediquem a uma “forma especializada de coleta de lixo conhecida como fofoca.”
 

     Boletim Nº 6 Novembro-Dezembro de 1995
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