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A repórter, o prêmio do rei e a cama do faquir Análise

A repórter, o prêmio do rei e a cama do faquir

Jornalista premiada é acusada de mentir, e sofre na mão de outros jornalistas

De 24 a 31 de julho de 1994, o Correio Braziliense publicou uma série de oito reportagens sobre “Tráfico de Crianças” que lhe rendeu um glorioso prêmio internacional e uma contestação implacável. O prêmio foi o Rei da Espanha, entregue pelo próprio Juan Carlos à repórter Ana Beatriz Magno, e a contestação coube à Usia, agência de informações do governo dos Estados Unidos, que considerou “lenda” uma parte da reportagem. (O governo americano diz que essas notícias, por serem “ficção perigosa e prejudicial”, atrapalham a causa humanitária da adoção de crianças).

Segundo o enfoque geral da série, existe um tráfico internacional de crianças para extração e comércio de córneas, rins e corações, os quais seriam vendidos para transplantes nos países desenvolvidos. Segundo a Usia, Ana Beatriz mentiu e relatou uma “lenda urbana”, uma cascata recorrente que aparece numa cidade, causa pânico, esvai-se e reaparece mais tarde em outro lugar. Quando foi receber o prêmio do rei, em Madri, em 18 de março de 1996, a repórter foi hostilizada pela imprensa espanhola, onde repercutia o relatório da Usia, e deitou na cama do faquir. É um colchão de pregos onde o acusado deita diante de repórteres só interessados em massacrá-lo. O que ele diz é posto em dúvida ou rebatido, distorcido, manipulado, e só sai o que os jornalistas já decidiram ser a verdade. Soa familiar?

 A viagem da repórter do Correio Braziliense para o prêmio do rei e a cama do faquir começou em maio de 1994, com a comprovação de fraudes na adoção de crianças em Santa Catarina. Foi um excelente trabalho. A repórter decidiu seguir a pista de 52 crianças adotadas por casais estrangeiros e disse que as procurou em cinco países —França, Itália, Alemanha, Israel e Suíça — , e localizou 29. Em 9/12/95, ela escreveu no jornal: “Mas e as outras? Caíram na lendária e cruel rede de tráfico de órgãos? Não se sabe”. Esse é o problema: a reportagem apostou na conexão entre o fato de não ter achado 23 crianças levadas para a Europa e a “lendária” traficância de órgãos, e essa barbaridade é fácil de supor e difícil de demonstrar. O conjunto de estarrecedoras e minuciosas matérias sobre compra e venda e adoções fraudulentas de crianças e tráfico de órgãos (de adultos) para transplantes foi um grande momento do jornal, mas forçou a mão ao alardear, sem restrições, controversas notícias de rapto ou adoção de crianças para extração de órgãos.

A rigor, a série de reportagens errou na partida. O selo era “Tráfico de crianças”, um assunto tão horripilante quanto banal e por isso mais horripilante. Mas o título e a abertura da primeira reportagem da série deixavam claro que iam noticiar (e provar) mutilação e comércio de órgãos. “O horror em nome da ciência”, dizia o primeiro título (24/7/94), e a abertura, escrita pelo diretor de Redação Ricardo Noblat, prometia ao leitor, para os sete dias seguintes, a descrição chocante de um dos “crimes mais perversos cometido, rotineiramente, um pouco por toda parte nos países do Terceiro Mundo: a compra e venda de crianças, o seqüestro a serviço de uma indústria de transplante de órgãos montada para socorrer doentes, na Europa e nos Estados Unidos, que podem pagar caro por um rim, uma córnea, um coração”. E mais: “Indícios transformaram-se em provas quando Ana Beatriz bateu à porta de pretensos pais adotivos, instituições respeitáveis e autoridades dos governos dos 6 países que visitou na Europa e no Oriente Médio”. Desde Auschwitz não se leria nada tão escabroso.

Mais tarde, já sob o tiroteio da Usia, o jornal baixou a bola e alegou (18/3/96) que “a reportagem de Ana Beatriz Magno... denuncia o desaparecimento de crianças brasileiras....O comércio de órgãos é apenas um dos elementos da reportagem, que se baseia em denúncias feitas em vários países”. Em 24/3, o jornal repetiu a nova versão afirmando que a reportagem “somente mencionava alguns casos e matérias sobre tráfico de órgãos. Esses casos, documentados com papéis oficiais de várias instituições”. O que o jornal chamava de menção eram duas páginas dramáticas com casos de três crianças (duas no Brasil, uma na Colômbia) e de um adulto, doente mental, na Argentina, que teriam sido mutilados por traficantes de órgãos. Na verdade, os dois casos citados de mutilação de crianças brasileiras não foram apresentados pelo Correio como “documentados com papéis oficiais” de nenhuma instituição. O do argentino Pedro e o do menino colombiano Janson, cujas córneas teriam sido extraídas a força, são controversos. No caso colombiano, depois de abonar a versão do roubo das córneas (24/7/94), o Correio divulgou a outra (28/3/96), dada pela Usia: uma doença e não um bisturi teria cegado Janson.

 Meninos desaparecem às grosas no mundo, inclusive no Brasil, como tem demonstrado a novela Explode Coração. É gigantesco o comércio internacional de crianças, vendidas ou tomadas dos pais, com intermediação de enfermeiras e advogados, e adotadas em processos repletos de ilegalidades, como o Correio noticiou exaustivamente. Nesses capítulos, a reportagem foi correta. Mas conectou muito sensacionalmente o tráfico de crianças com a mutilação de crianças.

 É fato o comércio de órgãos de cadáveres ou de miseráveis vivos que, no Brasil, anunciam rins pelos jornais. Nesse mundo de Mengeles, é possível que se assassinem crianças para arrancar-lhes os órgãos, mas a verdade é que a Usia tem razão quando diz que o assunto gera muita histeria e nenhuma comprovação. Os casos brasileiros de extração de órgãos relatados pelo Correio Braziliense são daqueles episódios verossímeis que só ficam de pé com a fé dos leitores. O jornal contou que no Rio, em dezembro de 1993 e janeiro de 1994, dois garotos de quatro e oito anos teriam sido (foram, endossou o Correio) seqüestrados no Barra Shopping e reapareceram sem um rim, extraídos por quadrilhas de traficantes. As reportagens não têm elementos de convencimento, exceto a credibilidade do jornal. O Correio disse que entrevistou os pais das crianças, mas eles não quiseram ter seu nome publicado, nem deram queixa à polícia.

Jornais dos Estados Unidos e da Espanha ocuparam-se do assunto quando a Usia divulgou um relatório contestando a reportagem.. “Empresas jornalísticas da América do Sul e da França têm reciclado a mesma história falsa por anos”, escreveu Todd Leventhal, da Usia. “É uma lenda urbana”, disse o relatório, referindo-se exclusivamente às notícias de rapto ou adoção de crianças para extração de órgãos. O dossiê da Usia incluiu uma reportagem da revista Newsweek (25/6/95), feita quando supostos casos de mutilação de crianças estariam ocorrendo na cidade paulista de Carapicuíba (e na Índia, Filipinas, Romênia, Tailândia, Porto Rico, Coréia do Sul) e concluiu: “são falsos”. A Folha de S.Paulo mandou o repórter Sergio Torres a Carapicuíba e em 15/5/95 ele relatou, incrédulo, as garciamarquezanas lendas de crianças estripadas por um homem-tatu. “De acordo com moradores, meninos e meninas estão sendo capturados por palhaços, bailarinas, louras seminuas e até um estranho híbrido de homem e tatu, que sumiria com a vítima terra adentro (...) As histórias repetidas o dia inteiro nas ruas, escolas e lojas são falsas, dizem os policiais da Delegacia de Carapicuíba. A polícia local não registrou nas duas últimas semanas nem sumiço de crianças nem o aparecimento de cadáveres mutilados. A falta de provas não convence a população, que critica a ação policial”, contou o repórter.

 O delegado de Carapicuíba, Brasílio Gomes Machado Filho, disse que a origem dos boatos poderia ser o desaparecimento de uma garota de onze anos supostamente levada pelo padrasto. Moradores em pânico, como a dona de casa Lourdes Coelho, no entanto, relatavam nada menos que oito casos de “crianças [que] sumiram e depois apareceram com as barrigas retalhadas e esvaziadas”. A Folha teve o cuidado de citar o pesquisador francês Jean-Noel Kapferer e seu livro Boatos, o Mais Antigo Mídia do Mundo (Forense Universitária), que também trata o tráfico de órgãos de crianças como invencione recorrente. “Kapferer narra episódios de boatos desse tipo em diferentes cidades do interior da França, em épocas variadas. São boatos que se repetem tanto que se transformam em “lendas urbanas”, escreveu a Folha, citando o livro: “Depois que acaba, o boato se transforma numa semilenda e circula lentamente de uma cidade a outra”. Em abril de 1996, a lenda urbana reapareceu no Rio: traficantes de órgãos, dizia-se na cidade, estariam usando uma Kombi para raptar crianças em bairros pobres. Saiu em algumas rádios, mas nenhum jornal sério deu importância ao boato.

Baseada no relatório da Usia, a embaixada dos Estados Unidos na Espanha pediu que o prêmio não fosse dado à repórter brasileira. Os jurados mantiveram a decisão. O embaixador Richard Gardner apelou para o rei, mas o altivo Juan Carlos entregou o prêmio a Ana Magno no Palácio da Zarzuela. No artigo em que contou esses fatos (“Do outro lado do balcão”, 24/3/96), a repórter descreveu seu desconforto na cama do faquir ao passar de caçadora a caça. A uma repórter espanhola que duvidou que tivesse entrevistado médicos franceses, a repórter brasileira respondeu que esteve na França e fala francês. “A jornalista, então, falou em seu microfone: A jornalista brasileira, apesar de não falar francês, disse que entrevistou em francês os médicos franceses. Fiquei estupefata...”
Outra pergunta de jornalista, segundo Ana:
— Você não tem medo que Deus castigue você e sua filha pequena por escrever tantas mentiras?
Ana respondeu que tinha investigado “54 casos” de crianças sumidas, entrevistado 126 pessoas, usado documentos da ONU, da OMS e outras organizações e pesquisado jornais estrangeiros. “No dia seguinte, o El Pais publicava: Jornalista brasileira diz que só pesquisou dois casos e o resto de seu trabalho foi reaproveitado de outros jornais”. Apesar do bafafá internacional (até o americano Washington Post tratou do assunto), o caso não repercutiu na imprensa brasileira — exceto pelas reportagens do jornal acusado de mentir (“Prêmio do Correio incomoda os EUA”, deu na primeira página em 18/3, entre outras matérias). Fora isso, nota da revista IstoÉ (17/3) assemelhou o incidente ao da repórter Janet Cooke, do Washington Post, ganhadora e perdedora do Prêmio Pulitzer de 1981. Janet inventou Jimmy, um garoto de oito anos viciado em heroína, tal como Charles Dickens inventou David Copperfield. O diretor do Correio Braziliense escreveu para IstoÉ e protestou contra a comparação.

Do episódio sobra a lição do erro de edição do jornal e da cama do faquir da repórter. O Correio Braziliense deveria ter sido mais cauteloso ao editar as narrações e suspeitas de rapto e adoção de crianças para suposta extração de órgãos, e cometeu grave erro de edição ao ancorar a série de reportagens nesse torpedo da abertura. Ademais, o jornal, que diz ter feito exaustiva pesquisa na imprensa estrangeira sobre o assunto, ignorou completamente as ponderações já feitas quanto à controvérsia dessas histórias.
A repórter Ana Beatriz Magno, por sua vez, agora pode inscrever-se no gigantesco clube de pessoas acusadas e amordaçadas por repórteres e jornais prepotentes: culpados ou inocentes, muitos acusados ficam desamparados e não conseguem publicar nenhuma cartinha de defesa, muito menos dispor de uma página para esbravejar, como a repórter dispôs e esbravejou, que a imprensa que a fez deitar na cama do faquir é “ignorante” e “tendenciosa”.

 

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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