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Congresso, a geni da mídia Análise

Congresso, a Geni da Mídia

Um dos pecados mais graves da imprensa é imprimir uma notícia que ela sabe ser incompleta, deturpada, omitindo dados que, se publicados, reduziriam o impacto do “fato”. A notícia ponderada é um tiro de festim banido das redações como uma “matéria derrubada”. O que deve ir no lide (as primeiras linhas do texto), e, por conseqüência, no título, é o torpedo — ainda que turbinado com os aditivos do escândalo e da meia verdade.
A mídia abusa dessa fórmula no noticiário da reforma da Previdência — uma das piores coberturas que poderia fazer. Quanto mais se lê, menos se sabe o que acontece.
Nesse tipo de cobertura, cada fato ou proposta de mudança deveria gerar um gráfico com informações do tipo “como é, como ficará, quem ganha, quem perde”. Mas isso é chato e trabalhoso. Vale mais emocionar e indignar do que informar o público — e a única bola da vez é o Congresso. Nenhum item da reforma da Previdência mereceu tanto detalhamento quanto a aposentadoria dos parlamentares — de tal forma que provavelmente o público sabe minúcias do Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) e muito pouco sobre o que vai acontecer com a sua própria aposentadoria.
O caso Gibson é exemplar de como a imprensa às vezes injeta nas manchetes uma vitamina dramática que engorda o fato e faz crescer o interesse pela notícia.. No vaivém da reforma, o presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães, acertou com líderes de partidos a extinção do IPC. Foi uma decisão histórica, apoiada de pronto pelos líderes do PT, PDT e PSDB e, condicionada a consultas às bancadas, pelos do PMDB e do PFL. “O que está em jogo é o nome da instituição”, proclamou até mesmo o líder do PFL, Inocêncio de Oliveira (O Globo, 15/2). Duas semanas depois, o presidente da Câmara honrou a palavra e encaminhou o projeto de extinção do IPC.
Para a Folha de S.Paulo, a notícia a destacar naquele dia era a de que quase a metade da Câmara (224 de 513 ) endossara requerimento do deputado Nilson Gibson (PSB-PE) para manter o IPC tal como está. O noticiário, em três páginas (15/2), abriu com o título “Conheça os deputados que querem manter privilégio” e o subtítulo “Requerimento de Nilson Gibson pró-IPC teve o apoio de 223 colegas”. Na página seguinte, o título para notícia da articulação do presidente da Câmara contra o IPC não era tão enfático: “Líderes dizem que insistirão no fim do IPC”. A Folha publicou o nome e o telefone de signatários do requerimento de Gibson — incitando os leitores a ligar e protestar. O âncora do SBT, Boris Casoy, deu-lhes uma banana.
O show teria alvo certo se tivesse pulverizado o histrião deputado Gibson, porém cometeu erro de foca ao alvejar os 223 que subscreveram o requerimento. Até os contínuos da Câmara sabem que isso se chama “apoiamento”. Faz parte da etiqueta do parlamento um deputado subscrever um projeto mesmo sem concordar com ele. “Devo esclarecer que é uma prática normal no Parlamento apoiar o direito de discutir determinada matéria, não significando, no entanto, apoiar o seu mérito”, reclamou (24/2) a deputada Socorro Gomes (PC do B-PA). Seria uma “barriga” (notícia falsa dada de boa fé) se a Folha não conhecesse o rito do apoiamento.
Contestado, o jornal padronizou uma resposta: “A reportagem da Folha considerou como manifestação de apoio ao IPC as assinaturas dos deputados...”. E insistiu em que o requerimento de Gibson fora “endossado pelos colegas”. O jornal teria agido melhor se considerasse menos e investigasse mais. É provável que muitos dos 224 queiram manter o IPC como um inadmissível privilégio. No dia 20, o Estadão noticiou um levantamento feito pela assessoria do líder Inocêncio de Oliveira: dos 513 deputados, 121 são “potenciais” defensores do IPC, porque estão prestes a se aposentar. O JB ampliou a notícia (22/2), mas a Folha não deu nada. Aos poucos, foi ficando claro que, ao contrário do que ele próprio imaginara, a proposta de Gibson era o caminho mais rápido para se chegar à extinção do IPC. Ao perceber a real implicação de seu projeto, Gibson retirou seu requerimento (IstoÉ, 28/2). Antonio Kandir (PSDB-SP) prometeu apresentar outro nos mesmos termos.
Um problema com o noticiário sobre o governo é a falta de equidade. A imprensa cumpre o papel de fiscalizar o Parlamento com mais rigor e sobretudo show do que exerce sua tarefa de monitorar o Executivo e o Judiciário. Há duas grandes linhas nessa escolha: l) uma reverência monárquica à figura do presidente Fernando Henrique Cardoso, tirando da mídia apetite para cobrir a administração a partir do interesse público; e 2) Um desprezo plebeu pelo Congresso — e por extensão pelos “políticos”. “A imprensa brasileira tem uma posição de quase servilismo com o governo Fernando Henrique Cardoso”, disse o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho, no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em 26/2. É homem mordendo cachorro: o editor do maior e mais crítico jornal do país diz na televisão que a imprensa é servil (bajuladora, subserviente) ao governo. Os seis jornalistas-entrevistadores engoliram a seco: nada perguntaram.
Abra-se qualquer jornal em qualquer dia e haverá um exemplo de como o governo manipula e a imprensa reproduz a manipulação. “Rigor de FH contra fraude atinge parente”, deu na primeira página o Jornal do Brasil de 27/2. Era o porta-voz Sérgio Amaral abastecendo os repórteres com a notícia de que o presidente “determinou” que os bens dos acionistas majoritários do banco Nacional fiquem em disponibilidade.
A partir daí, a “informação” passou a ser destacada em noticiários de TV e colunas — embora só merecesse destaque se o presidente tivesse cometido o crime de deixar os donos dos Nacional livres para negociar suas casas de campo enquanto o contribuinte paga as dívidas deles. Ademais, a informação era pura manipulação O “rigor” estaria em que os bens dos donos do banco Nacional foram considerados indisponíveis, inclusive os da nora do presidente, Ana Lúcia Magalhães Pinto (ela foi uma das beneficiárias dos dividendos de US$ 52 milhões extraídos do banco entre 1993 e 95, à custa de fraudes da diretoria que agora o contribuinte vai cobrir através do Proer). Na verdade, os bens dos acionistas controladores de bancos beneficiados pelo Proer entram como garantia dos empréstimos (logo, ficam indisponíveis) por que essa é uma determinação da Medida Provisória 1.179. O detalhe é que a MP assinada pelo presidente, em 4/11/95, não mencionava a indisponibilidade dos bens dos acionistas majoritários, apesar de o Banco Central estar liberando, naqueles dias, R$ 5 bilhões para o Nacional. Segurar os bens pessoais dos banqueiros foi uma exigência do Congresso. Senadores como Jader Barbalho, líder do PMDB, e Vilson Kleinubing (PFL-SC), disseram que só aprovariam o governo alterasse a MP. No dia seguinte (15/11/95), nenhuma manchete de grande jornal destacou o zelo do Legislativo. Vejam os títulos: “Banqueiro dará bens como garantia”(JB); “Fusão: bens de acionistas serão garantia (Globo); “Governo faz acordo para aprovar MP dos bancos” (Estadão); “Senado recua e apoia MP dos bancos”(Folha).
Outra história exemplar é a do deputado e o ministro. Em 15/1, o deputado Valdemar Costa Neto, líder do PL, acusou o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, de ter aceitado suborno para prorrogar ilegalmente contratos de R$ 200 milhões nos Correios. A notícia não prosperou — e o denunciante foi logo desqualificado. O Jornal do Brasil deu com destaque (“Deputado acusa Sérgio Motta”), e demoliu o acusador com o título “Um velho criador de casos”, cujo texto começava assim: “Não é de hoje que o líder do PL, deputado Valdemar Costa Neto, cria problemas para o governo na tentativa de obter cargos”. Uma regra de ouro do jornalismo é a de que a melhor fonte é a que teve interesse contrariado e sabe do que está falando. Ladrão de carro (preso) é fonte qualificada para falar da segurança dos veículos.
Escarnecer do Legislativo é um fenômeno internacional, e, no Brasil, agravado pelo baixo prestígio da instituição no atacado e o baixo nível no varejo. A questão não é elogiar o Parlamento; é não torná-lo, por comodidade operacional e oportunismo editorial, a Geni da democracia representativa — numa alusão à personagem musical de Chico Buarque. É mais fácil cobrir o Congresso do que o Planalto. É um poder descentralizado e individualizado. Os 513 deputados e 81 senadores dividem-se numa palavra-chave: partidos, com interesses diferenciados. São fontes loquazes (sempre há um deputado ou senador disposto a dizer o que um jornalista quer publicar). Os serviços de apoio, como documentação, são escancarados para a mídia. Dos três poderes, foi o único, depois da Era Collor, a depurar-se, num festival de más notícias, com a CPI do Orçamento. Em contraste, o Executivo, concentrado e fechado, sonega e manipula informações — o exemplo-ônibus é o Banco Central e a folia com o dinheiro público.
A forma de divulgação dos desatinos de um parlamentar gera no público uma associação entre o ato individual e a imagem da instituição. Se um deputado faz uma besteira, o tom da notícia é os políticos não prestam. “Cada corporação tem o chefe que merece. No caso dos parlamentares, o líder sindical é o deputado Nilson Gibson...”escreveu a revista IstoÉ, definindo-o como um “lambe-botas do regime militar”. Mas quando o presidente do Ibama mobiliza-se para proibir macacos em comerciais de TV não é “o governo” que cai no ridículo. Se a Radiobrás veta músicas dos Mamonas Assassinas, não é “o governo” que reinstitui a censura.
Uma das marcas gratificantes da imprensa é cobrir o Congresso e o Planalto com a boca no trombone. Se bota surdina no trombone do Planalto, isso resulta em proteção e parcialidade. A surdina amouca o trombone quando a nota dissonante é o setor privado. Empresários devem a himalaica soma de R$ 42 bilhões à Previdência (Veja, 21/2), e a regra é omitir nomes dos caloteiros. “Empresas sonegaram R$ 6 bi ao INSS em 94”, noticiou a Folha em 6/2. Além do título errado (sonegar não é o mesmo que deixar de pagar), o jornal não pinçou um só nome de “sonegador”.
Se pode escolher entre dois alvos, a imprensa atira nos políticos. Um exemplo acabado: em 18 de junho de 1993, O Globo divulgou uma pesquisa do Ibope/Cepac sobre instituições, na qual deputados e senadores obtiveram o mesmo raso nível de credibilidade dos empresários (9% disseram que neles se podia confiar sempre) e de profunda falta de credibilidade (44% afirmaram que nos políticos e nos empresários não se podia confiar nunca). Qual foi a manchete do jornal? “Ibope: só 9% acreditam nos políticos”.      Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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