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Botsuana não é aqui. Aqui é pior que Botsuana  

Análise

Botsuana não é aqui. Aqui é pior que Botsuana

Troféu da concentração de renda é a miséria que o governo desdenha e a imprensa disfarça

A imprensa gosta de miséria? A resposta é sim, porque a miséria é negativa, e notícia boa é notícia ruim. A miséria espetacular, e em especial a que permite o brilhareco narcisista dos redatores, é bem-vinda nas páginas e nos vídeos – como as reportagens que mostram o homem-gabiru, a prostituta infantil, os mendigos sob o viaduto. É a distante miséria-satélite: elide-se nos próprios personagens e rende reportagens e compaixão asséptica. A miséria estrutural, que obriga o leitor a pensar, e a pensar em injustiça e responsáveis, tem fôlego curto como notícia - e menor ainda se o assunto for levantado pelo concorrente.
As considerações se aplicam à manchete da Folha em 28 de julho sobre um relatório do Banco Mundial que entroniza o Brasil no pódio da concentração de renda. “Brasil lidera em desigualdade social”, estampou o jornal na primeira página. A pesquisa do Banco Mundial com indicadores sociais de 71 países pobres e ricos, mostrou que no Brasil 10% da população detêm 51,3% de toda a renda nacional, a mais perfeita tradução do que o economista Edmar Bacha chamou de Belíndia. Os 20% mais ricos (a Bélgica) ficam com 67,5% da renda, enquanto para os 20% mais pobres (a Índia) sobram 2,1%. A ironia é que a Bélgica aparece honradamente na reportagem (lá os 10% mais ricos da população têm apenas 21,5% da renda) – a Índia não é citada. O segundo lugar é de Honduras e Quênia (os 10% mais ricos detêm 47,9% da renda), o terceiro, da África do Sul (47,3%) e o quarto, do Zimbáue (46,9%). Para fazer a comparação predileta da imprensa brasileira: nos Estados Unidos, onde os ricos são muito ricos - um Bill Gates vale dez Roberto Marinho -, os 10% mais ricos ficam com somente 25% da renda nacional, ou seja, 26,3 pontos abaixo do Brasil.
Isso sim é notícia ruim – tão ruim, incômoda e humilhante que parece ter havido uma convergência tácita para enterrar o assunto. A própria Folha baixou a temperatura do relatório: tirou-o da primeira página na edição seguinte e repercutiu-o com governadores do Nordeste, os presidentes da CNBB, dom Lucas Moreira Neves, e do PT, Lula. Ou seja, não ouviu ninguém que integre a seleta lista dos 10%. Mas a Folha teve o mérito de servir o abacaxi ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que estava em Lima para assistir à posse de Alberto Fujimori. O presidente, a julgar pelos jornais, não ficou impressionado. Disse que o relatório era notícia velha (“Eu sei disso há muito tempo”), insinuou que miséria não se mede, combate-se, e precipitou o anúncio de um programa de renda mínima para idosos e deficientes físicos que talvez entre em vigor no próximo ano.
Foi um excelente contraponto publicitário: se lhe serviam notícias ruins, o presidente emendava com notícias boas. Contrariando o mais conhecido aforismo do carnavalesco Joãozinho Trinta (“o povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”), o intelectual-presidente saiu-se com uma pérola incompreensível, que os jornais destacaram mas não decifraram: “Medir se a miséria é maior ou pouquinho pior é até imoral”. O enlevo da imprensa com o presidente impediu os pauteiros de explorar a contradição que é o “autor da teoria da dependência” sugerir que os indicadores sociais são irrelevantes.
Combater os problemas sem medi-los seriam as bases de uma novo empirismo científico, formulado pelo que já foi “O Príncipe dos Sociólogos”? (Uma semana depois, em seu programa de rádio “Palavra do Presidente”, FHC mediu a miséria de Jaramataia, em Alagoas, cuja taxa de mortalidade infantil teria despencado, nos seis meses do seu governo, do índice botsuânico de 333 para o nível sueco 3 por mil. Só que era mais uma pirotecnia estatística do governo, como demonstraria em seguida o colunista Elio Gaspari.)
Se o presidente deixou claro que a imprensa não precisava ir ao Banco Mundial pegar dados adversos como os do Banco Mundial, para outros jornais, aparentemente o triste relatório também não foi novidade. O Estadão e O Globo fizeram de conta que a notícia se referia a um país que não merecia ser notícia num jornal brasileiro, digamos Botsuana. Acontece que Botsuana, um ex-protetorado britânico na África, com l milhão de habitantes, tradicional campeão da concentração de renda, perdeu o pódio para o Brasil. Os mais pobres desse país, do qual só se toma conhecimento ao se procurar na enciclopédia, são, segundo o relatório do Banco Mundial, um pouco mais ricos que os pobres do Brasil: os 20% de miseráveis de lá ficam com 3,6% da renda, 1,2 ponto percentual a mais que os nossos.
Se o Estadão e O Globo só citaram o relatório quando reproduziram a resposta de FHC para a Folha, as revistas semanais Veja e IstoÉ ignoraram o assunto solenemente. Zero Hora dedicou ao relatório seu principal editorial do dia 29 (“Vanguarda indesejável)” e, nos dias seguintes, o assunto emagreceu e só foi tratado por colunistas: Carlos Heitor Cony, na Folha (“Brasil x Botsuana”), e Luis Fernando Veríssimo, no JB (“Queremos revanche”). O Jornal do Brasil foi o único dos grandes jornais a produzir notícia do relatório do Banco Mundial, depois do furo da Folha, mas de forma a reduzir seu impacto: “Documento pode estar superado”, amenizou o JB, citando um economista a quem atribuiu a boa notícia de que o estudo foi preparado com dados de 1989, mas a situação estaria melhorando desde o fim do governo Collor. (Por sua conta, o JB melhorou o indicador social, elevando a renda per capita do brasileiro de US$ 3.000 para US$ 5.380.)
E mais não se disse nem se questionou. O insultuoso primeiro lugar do Brasil na concentração da renda não gerou escândalo noticioso proporcional à sua dramaticidade social. Seguramente, eis um tema que a mídia rejeita - por destoar do coro encomiástico ao governo e por ter sido levantado por um jornal isoladamente. Nos temas em que atuam afinados, como um partido único (exemplos: escândalos no setor público, campanha contra estatais, fraudes no Sindicato dos Jornalistas do Rio), os jornais costumam seguir em bloco assuntos que um concorrente levantou. Fora desse figurino, o preceito é não colocar azeitona na empada do outro. A tática de avestruz enquadra-se no que o estudioso americano Philip Meyer, no livro A Ética no Jornalismo (Forense Universitária, 021-226 9661), chamou de a regra número um do código não-escrito que rege a imprensa: “Uma história originada por outro veículo nunca é tão jornalisticamente valiosa como uma originada por nosso próprio jornal”.
O repórter que cobriu o caso Watergate para o New York Times, J. Anthony Lukas, disse a Meyer que esta regra explica por que o Washington Post ficou tanto tempo sozinho na cobertura do grande escândalo do governo Nixon. Na interpretação de Meyer, a esperança, diante do furo alheio, é que o concorrente se dê mal e sua “história” seja desmentida ou definhe até desaparecer do noticiário, deixando aliviados os que foram furados. No caso do relatório do Banco Mundial, nem foi preciso tanta lição histórica: ninguém se incomodou, ninguém se deu mal.

     Boletim Nº 5 Agosto-Outubro de 1995
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