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A cruzada de Jatene, a zombaria de FHC e o desaprumo da mídia Análise

 

A cruzada de Jatene, a zombaria de FHC
e o desaprumo da mídia
 
 
Imprensa perde o discernimento da notícia na
batalhado ministro por verbas para a Saúde

 

Um homem preso na gruta, um aviador solitário cruzando o oceano, um chinês enfrentando um tanque de guerra - a força do indivíduo nadando contra a corrente é um dos ícones da imprensa americana que a brasileira copiou. O foco na individualidade faz sentido: depois da tragédia, é mais notícia a menina presa nos escombros, porque a esperança reverbera no coração do público, do que os mortos no desabamento. Tal figurino não está sendo aplicado pela mídia numa das grande performances do governo FHC: a cruzada solitária do ministro Adib Jatene por mais verba para a Saúde. Para uma imprensa que se queixa de um governo sem notícias, Jatene poderia ser o indivíduo que faz a diferença . Enquanto o dinheiro público esvai-se na ciranda financeira, nos financiamentos subsidiados de grandes empresas, como o empréstimo à Globosat na Caixa Econômica, ignora-se o ministro que briga para salvar vidas humanas.

À exceção de um outro colunista, a mídia trata Jatene como um deslocado. Grosso modo, as reportagens sobre a cruzada do ministro repetem três pontos: ele pretende criar um novo imposto, quando ele vai renunciar, se é que já não renunciou, e como nada a briga com a "área econômica". Nenhuma reportagem mostrou lobby para a Saúde. Doentes não fazem passeata na Praça dos Três Poderes. Nenhum bloco parlamentar se recusa a votar uma emenda se o governo não manda mercúrio para os hospitais. Nenhuma reportagem explorou o óbvio: para que Jatene quer mais dinheiro - ao contrário, nas entrevistas pingue-pongue, pergunta-se se ele está defendendo o lobby dos hospitais particulares. Sem fazer ligação entre uma notícia e outra, a mídia farta-se de matérias sobre partos em pias de hospital, aleijados obrigados a rastejar para a sala de raio-X, crianças que morrem na recepção por falta de médicos.

 Nenhuma reportagem foi pautada a partir da foto ultrajante do presidente FHC (Globo, 2-7) dando "com bom humor" uma nota de R$1 ao ministro como ajuda pessoal para a Saúde. Era uma chacota e uma esmola do presidente que três semanas antes aparecera em outra foto (9-6), confraternizando com o lobby ruralista a quem repassou R$ 6,5 bilhões. Nenhum editorial indignado contra a inverossímil declaração do secretário do Tesouro, Murilo Portugal, que, numa reunião com Jatene, teria dito que o governo não dará mais dinheiro para a Saúde e que o povo deve pagar pelo atendimento nos hospitais públicos. Se o serviço fosse pago usaria menos, teria dito o secretário do Tesouro. Uma reportagem rápida mostraria que um inibidor da demanda é a falta de dinheiro dos doentes para pegar o ônibus até a fila do hospital. Há casos de médicos que recebe dois reais do SUS por consulta e ainda tiram do bolso dinheiro para pagar a passagem de retorno do paciente. Nenhuma reportagem especula se, quando FHC "incentiva" seu ministro da Saúde a batalhar no Congresso pela volta do IMPF, o presidente e os ex-samaritanos do Ministério mergulham no oportunismo de não se comprometer numa atitude negativa - novo imposto - mas abrem espaço para faturar o incentivo se ela der certo. O governo cinde-se em duas frentes: uma que decide como distribuir o dinheiro e despacha medidas provisórias, e outra que vai deserdada ao Congresso pedir apoio que o núcleo decisório do poder negou, mas, em cima do muro, não desautorizou.

 Há notícia no fato de um representante do PPR( logo, da direita ) desafiar os intelectuais do PSDB, como José Serra( logo, da esquerda ) por verbas para a Saúde do povo pobre, mulambento, que entope os hospitais públicos a implorar por uma consulta ou um remédio. Quem fez vida acadêmica com teses sobre a desigualdade do sistema não foi o ministro Jatene. Ele também não subiu nos palanques para prometer gaze nos ambulatórios médicos nos hospitais, mas, ministro, quer aplicar o juramento de Hipócrates além do atendimento a colegas de ministério que precisam de seu bisturi. A propósito: quanto o ministro Paulo Renato, da Educação, pagou para ser operado na ilha de excelência do Instituto do Coração?

 A cruzada pessoal do ministro poderia inspirar reportagens sobre a diferença entre o voluntarismo da campanha, quando os candidatos prometem cadeiras cativas no céu para os eleitores, e o imobilismo da "dinâmica do poder", já designada como "masturbação sociológica".

 Jatene expressa o empreendedor equidistante do voluntarismo conjuntural e do imobilismo estrutural. Quer tratar emergência como emergência, sem conformar-se com os discursos que pregam revoluções de fundo, como criação de empregos e aumento de renda que garantam alimentação saudável e mantenham o povo longe dos hospitais. Emergência trata-se como emergência, como um pronto-socorro que opera o baleado antes de nomear um grupo de trabalho para estudar o desarmamento da população.

 A cruzada de Jatene tem o mérito de pôr em discussão um assunto tão relevante quanto obscurecido: para onde vai o dinheiro? Por que o Estado tem recursos para financiar grandes empresas, bancar subsídios e não tem para curar os doentes? O papel reprodutivo do Estado capitalista não está só em proporcionar investimentos de capital, mas também em garantir a reprodução saudável da força de trabalho. Qualquer país precisa de mão-de- obra sadia para produzir riquezas.

 Aliás, na época áurea do chamado neoliberalismo, é certo o BNDES abrir a bolsa para financiar estaleiros e hotéis de luxo e o Banco do Brasil socorrer gigantes como a Varig? O argumento é que esse dinheiro (público) é devolvido ao público na forma de impostos, produtos e serviços. Certíssimo. É assim no mundo todo. Mas bancos privados como o Itaú, o Bradesco, o Real estão aí para emprestar dinheiro e fazer girar a roda da fortuna. Talvez fosse o caso de investimentos privados serem financiados com capital privado. E o dinheiro público ir para a Saúde pública.

 Tomem nota: Jatene (e com ele o Brasil) vai ganhar essa. Quando sentir que a maré estiver mudando, FHC abraçará a causa do ministro e mandará Serra repassar dinheiro para a saúde. E atrás do sinal verde do presidente irá a mídia que, com exceção de uma denúncia aqui, um editorial ali , tem revelado uma reverência a FHC só comparável à que usou para incensar o começo de Fernando Collor. Mais uma vez, a imprensa vai sentir a direção do vento depois de o vendaval passar?

     Boletim Nº 4 Julho de 1995
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