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A volta do bumerangue Análise
A volta do bumerangue
Jornalistas ignoram o jornalismo e cospem
fogo quando são criticados... na imprensa
As seções de carta e as cestas de lixo testemunham que inúmeras pessoas que lidam com a imprensa passaram por essa situação: um repórter telefona, cobra esclarecimentos sobre um assunto incômodo, a pessoa diz que não vai falar, e depois lê frases atribuídas a ela como se tivesse dado entrevista. A vítima escreve uma carta para o jornal ou revista, que pode sustentar que a entrevista foi dada, como pode jogar a carta no lixo. É uma rotina com não-jornalistas e por isso merece ser destacada quando ocorre com jornalistas nas duas pontas da linha.
Por essa situação diz que passou e protestou com veemência o editor-executivo do maior jornal brasileiro, Matinas Suzuki Jr., da Folha de S. Paulo. Ele reagiu ao ser citado pela revista Veja de 24 de maio, na reportagem “Viagem de ‘luxo nababesco’”, que noticiava um passeio pela Itália, patrocinado pela Fiat-Alfa Romeo, de aproximadamente 30 jornalistas influentes. Coube a um deles, o colunista social César Giobbi, do Estadão (grupo editorial que mandou oito viajantes), descrever a boca-livre como um “luxo nababesco”. Veja escarneceu dos viajantes: “Seria curioso imaginar a cobertura da imprensa se a Fiat tivesse levado parlamentares para passear em Veneza e não jornalistas classe A”.
Tanto a observação ferina da revista quanto a reação ferida do executivo da Folha pedem reflexão acerca da postura ambígua da imprensa e, de quebra, acerca da deselegância da mídia e dos jornalistas nesses episódios. Quando são enquadrados no figurino “denuncista” com que ganham a vida e arruinam a dos outros, jornalistas têm revelado imaturidade e incivilidade. Se seus nomes aparecem nos títulos e não nos cabeçalhos, a regra é arrasar com o “denunciante”. São vários os exemplos recentes, como se vê no episódio das aposentadorias especiais e nos reparos que o ombudsman da Folha, Marcelo Leite, que tem a difícil tarefa de criticar a pele mais fina do mundo, fez à maneira como o Estadão desdenhou da matéria de capa de Veja no aniversário da morte de Ayrton Senna. O colunista Roberto Benevides respondeu: “O relações-públicas da Folha, que pretensiosamente se apresenta como ombudsman, criticou ontem, de maneira irresponsável e desonesta...”
E quando criticam o resto do mundo, os jornalistas são honestos e responsáveis? Tome-se o mote de Veja para imaginar o que aconteceria se parlamentares e não jornalistas tivessem embarcado no tour da Fiat. A resposta pode ser lida no Estadão. Apesar de autorizar a viagem de vários empregados, o jornal só suspendeu a publicação das matérias vindas da Itália, em 20 de maio, quando Veja começou a apurar informações para sua crítica.
Tal como alertara a revista, na mesma época em que seus jornalistas passeavam de gôndola em Veneza, o Estadão apresentou uma fatura ética a deputados que viajaram para o interior de São Paulo, com despesas pagas pela Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos, para conhecer uma fábrica de pneus da Goodyear e um campo de provas da Pirelli. A Associação quer ver aprovado um projeto do deputado Antonio Kandir (PSDB-SP), que proíbe a importação de produtos usados, inclusive pneus. “Nenhum deputado mostrou constrangimento com o fato de ter tido despesas pagas pela associação”, escreveu o jornal em 20 de maio. O repórter, ao acompanhar os deputados que iria repreender, não mostrou constrangimento ao aderir à boca-livre, almoçando por conta da ANIP, e pegando carona no ônibus do lobby que levou os parlamentares do campo de provas da Pirelli, em Sumaré, para São Paulo.
O caso de Matinas com Veja é educativo para os não jornalistas. “Matinas Suzuki Jr. contou a Veja que embarcou mais preocupado em acompanhar o futebol italiano. Numa folga dos gramados, no entanto, o enviado especial da Folha a Milão escreveu uma reportagem na seção de economia em que anotou o ‘excelente desempenho da Fiat no Brasil’”, escreveu a revista. “As entrevistas de Veja são farsas”, acusou Matinas. Tal como acontece diariamente com fontes, Matinas Suzuki negou ter dado a entrevista, mas não dependeu da boa-vontade de um jornal ou revista para registrar em miniatura a sua versão.
O jornalista pôde defender-se com o artigo “A etiqueta da Abril”, publicado na Folha em 28 de maio - e bateu com mão de ferro em Veja, no diretor de redação Mário Sérgio Conti e na Editora Abril, com afirmações que, na boca de um desses perseguidos pela mídia, seriam logo repudiadas com chavões como “insulto à liberdade de imprensa”, “chiadeira de poderosos contrariados” ou outra cantilena que a mídia usa, quando é criticada, para desqualificar o crítico e empalmar os erros.
Matinas explicou que conversou “rapidamente, e em tom pessoal, com uma jornalista que respeitava (e que se confessava “constrangida” em me entrevistar sobre o assunto), deixando claro que não daria declarações para a revista Veja - que sem o menor constrangimento escreveu que concedi uma entrevista a ela”. Os jornalistas sabem que no diálogo do repórter-com-pauta-para-cumprir e a fonte-que-não-quer-falar não há amizade, respeito, nem compreensão com a fonte. Veja foi entrevistar Matinas Suzuki porque já havia recortado reportagem publicada em manchete de seis colunas na página 2-8 do caderno Dinheiro da Folha, em 18 de maio, com o título “Para Fiat, Brasil é prioridade número um”. Qualquer coisa que dissesse seria editada na coluna do “É dando que se recebe”.
O artigo do jornalista causa espanto pela grave acusação de que o mais influente veículo da imprensa brasileira forja entrevistas. Jornalista educado, afável e de sólida formação cultural, Matinas não se limitou a contestar a reportagem de Veja. Arrasou com a Editora Abril. “No capítulo independência, o grupo Abril tem mais débito do que crédito. Fica engraçado querer transformar-se em agência de cobrança - indevida - alheia”, escreveu Matinas. O jornalista da Folha também acusou o diretor Mário Sérgio Conti de cometer “falcatruas jornalísticas” e disse que na gestão de Conti Veja “patina ressentidamente na lama obscura da decadência editorial e da perda de prestígio”.
Faltou jornalismo no samba. É óbvio que Matinas retribuiu a mordomia da Fiat com matérias de interesse da empresa. Ele explicou que em seu jornal isso é permitido - e poderia ter lembrado que a Folha inaugurou a prática de informar ao leitor quando o jornalista viaja com despesas pagas por fonte cujos interesses vai divulgar. Na esgrima jornalística, no entanto, isso parece que era pouco, e o executivo da Folha, depois de saudavelmente contestar o que Veja lhe atribuíra, contestou a revista inteira.
Num debate desses, ninguém pode ignorar - embora haja uma montanha de mau jornalismo para lembrar - que foi na gestão do atual diretor que Veja consolidou-se como veículo líder da imprensa, com furos que os jornais repetem e tiragem que os concorrentes invejam. Esse tipo de informação solar some das peças com que jornalistas respondem às críticas ...da imprensa. Escrevem panfletos, não matérias com dados e pesquisa. Não refletem, para o bem dos leitores, sobre apressados, levianos e ambíguos métodos da mídia - os mesmos que seus jornais, revistas, rádios e TVs usam em menor ou maior grau.
 

     Boletim Nº 3, Maio-Junho de 1995
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