Análise
Americanos se preocupam com manipulação das “fontes sigilosas”
Os editores de organizações jornalísticas responsáveis estão ficando cada vez mais cautelosos a respeito do uso de fontes secretas. Sua preocupação parece centralizar-se no seguinte:1) a possibilidade de que a mídia esteja sendo usada por fontes que insistem no sigilo ou por repórteres que inventam as coisas e as colocam nas suas matérias, atribuindo-as às chamadas fontes confidenciais; 2) a possibilidade de perda de credibilidade, sempre que os leitores ou telespectadores não recebam a informação exata a respeito das fontes específicas de informações importantes; e 3) as dificuldades de defesa em processos por difamação, quando os juizes se recusam a considerar a prova da exatidão das matérias em disputa, desde que baseadas em fontes que a mídia se recusa a identificar. Tal como acontece com muitas outras coisas neste mundo, o sigilo jornalístico tem os seus níveis(...) - seu uso em histórias como Watergate ou sobre o crime organizado que são de vital importância para o interesse público e envolvem gente que não coopera e gosta de sigilo. Poucos são aqueles que questionam o uso de fontes sigilosas por jornalistas que tentam expor os maiores cânceres da sociedade. Mas as fontes sigilosas também são usadas em matérias menos explosivas, particularmente aquelas que tratam da política e do governo. Os nossos jornais estão cheios de “funcionários da administração disseram”, “uma fonte da Casa Branca revelou” , “uma fonte chegada ao governador disse”, ou simplesmente, “fontes disseram”. Essa é a maneira como os repórteres cumprem a convenção de atribuir as informações que conseguiram, sem especificar nominalmente suas fontes que, por uma razão ou por outra, solicitaram o sigilo ( no noticiário sobre negócios, essas fontes são chamadas de anônimas ou “cegas”). A maioria dos jornalistas, mesmo aqueles que defendem o uso de fontes sigilosas nas grandes reportagens ou em matérias políticas, acham que existe um exagero no uso de fontes “cegas”, especialmente, desde Watergate. Eles vêem o surgimento de uma mística à volta do método desde que há um número cada vez maior de repórteres que parecem pensar que suas matérias ficam mais interessantes e dramáticas se contiverem uma ou duas fontes secretas. Há também a suspeita entre muitos editores de que alguns repórteres usam fontes anônimas porque são preguiçosos demais para procurar conhecer a identificação exata do informante. Norman E. Isaacs, editor aposentado e presidente do National News Council até 1982, tem ficado espantado, em anos recentes, com o fato de os “repórteres chamarem as pessoas e dizerem logo de início que, se não quiserem ser citadas, tudo bem.” William J. Small, antigo presidente da UPI e da NBC News, afirma que gostaria de ter um dólar por cada vez que um repórter o chama pelo telefone e lhe diz: “Olhe aqui, por que é que não fazemos isto off-the-record?” “Eles sempre ficam chocados quando eu digo que nunca falo off-the-record”- acrescenta Isaacs. Quando era editora administrativa do Democrat and Chronicle, de Rochester, NY, Nancy Woodhull recorda-se que uma da repórteres fez uma matéria sem qualquer identificação específica das suas fontes. Ao ser perguntada a respeito do assunto, a repórter disse: “Bem, eu não pensei que eles quisessem que seus nomes fossem usados”. Robert W. Greene, do Newsday, faz uma crítica ainda mais séria contra o uso de fontes “cegas”. “Já vi repórteres que passam adiante suas próprias idéias dizendo que são de fontes anônimas”- diz Greene. A perda de credibilidade quando os repórteres não são capazes de indicar as fontes nas suas matérias é o aspecto mais aborrecido do sigilo para alguns chefes de reportagem. A atribuição - dizer ao público de onde veio a informação - é um princípio cardeal do jornalismo americano. “Os leitores devem saber tudo o que se puder dizer a eles a respeito de onde surgem as informações, para que possam entender a informação”- diz Donald Graham, diretor responsável do Washington Post. “Se não puder dizer ao leitor exatamente quem disse o quê, o repórter deve contar o máximo a respeito da pessoa que disse, de maneira que os leitores possam entender, se possível, quais eram os motivos da fonte”. Graham acha que os repórteres têm o dever de obter suas informações on-the-record, mas concorda que isso nem sempre é possível em Washington. Woodhull acha que quando a fonte não pode ser totalmente identificada, “nós devemos dizer por quê. A pessoa estava com medo de perder o emprego, receosa de tomar partido? Nós devemos saber quais são os motivos da fonte e partilhar esse conhecimento com o leitor, com a máxima freqüência possível. Aquilo que Graham e Woodhull advogam tem sido a política formal no Courier Journal, de Louisville, desde 1976. As orientações de Louisville a respeito de fontes anônimas dizem em parte: “A razão para o anonimato da fonte deve ser explicada na matéria, tão completamente quanto possível, sem revelar a identidade da fonte. (Se a razão não é convincente, então a fonte não deve ser citada.)” Muitos jornalistas estão preocupados a respeito de as fontes os usarem quando se recusam a ser identificadas com a informação que estão passando adiante. Basear as matérias em fontes não nomeadas “sempre envolve manipulação”, diz Charles Seib, ombudsman aposentado do Washington Post. “E o leitor fica quase sempre mal informado. Clark Mollenhoff, antigo repórter de investigações que ensina na Universidade de Washington, escreveu que “qualquer repórter, realmente, com bastante experiência, sabe que muitos funcionários públicos e políticos que são dignos da maior confiança quando se pronunciam em off-the-record gostam de empurrar uma boa quantidade de maliciosa desinformação quando falam em confidência”. As complicações legais que envolvem o sigilo e o privilégio jornalísticos são tão interessantes que é fácil perder de vista os problemas éticos que eles levantam: quando é e se é que o jornalista deve concordar em proteger a identidade do informante ? Até onde a proteção do sigilo deve ir ? Até o momento da publicação e da transmissão, ou até o momento de ter de ir a tribunal ? Será ético um jornalista romper a promessa de não revelar uma fonte confidencial ? Será que o repórter está violando o sigilo ao revelar suas fontes para o editor ? Como é que podemos estar seguros de que fontes inescrupulosas não vão usar o sigilo para evitar responsabilidades ao dar informações possivelmente difamatórias ou prejudiciais ? Como é que podemos estar certos de que os repórteres não estão usando “fontes sigilosas” para vender suas opiniões? (Trechos selecionados do capítulo “Repórteres e suas fontes”, do livro Procura-se > Ética no Jornalismo, o mais completo trabalho já publicado nos Estados Unidos sobre os métodos da imprensa. Goodwin é professor da Universidade da Pensilvânia, EUA. Edição brasileira da Editorial Nórdica, tel (021) 284 8848.)
Boletim Nº 1, Março de 1995 © Instituto Gutenberg