Instituto Gutenberg

Análise

 

Vícios e virtudes do jornalismo brasileiro
A vulgarização e a espetacularização da notícia 
por meio da provocação de um impacto fácil são 
pecados recorrentes de um jornalismo preguiçoso e superficial 
Sandro Vaia
 
Uma troca de insultos bem exposta vende mais que uma lei bem explicada 
   U m instante de um dia comum de uma redação comum de um jornal brasileiro hoje. Chega a pauta: "As divergências sobre a regulamentação da telefonia celular estão provocando divisões na base de sustentação do governo. PFL e PSDB divergem sobre alguns pontos do projeto de regulamentação. Seguem 40 linhas com um quadro da troca de insultos entre os líderes dos partidos."
O acessório torna-se essencial. A manchete, ou o título da página, dirá que Inocêncio acha Anibal fanfarrão e Anibal acha Inocêncio boquirroto ou vice-versa, e é possível que o leitor tenha de redobrar seus esforços intelectuais se realmente estiver interessado não naquilo que um deputado acha do outro, mas em entender, afinal de contas, o que se pretende para a exploração da telefonia celular no Brasil nos próximos anos. Com um pouco de boa vontade e muita sorte, é possível que encontre essa explicação em algumas remotas e submersas linhas do jornal.
Esse pequeno protótipo é real, não inventado. Foi escolhido por ser recente e paradigmático de um estágio que o jornalismo brasileiro atravessa, por um misto de distração, negligência ou, quem sabe, uma difusa frivolidade, que pode chegar ao cúmulo do sacrifício de uma informação sólida e consistente por um título de gracioso apelo.
A vulgarização e a espetacularização da notícia por meio da provocação de um impacto fácil são pecados recorrentes de um jornalismo preguiçoso e superficial que se acostumou a trocar a investigação séria pela exposição epidérmica de conflitos. Uma troca de insultos bem exposta vende mais que uma lei bem explicada. Esse pragmatismo cínico, que pode muito bem servir como refúgio de incapacidades mais profundas, acabará, mais cedo ou mais tarde, levando à perda de substância e à desmoralização da própria instituição do jornalismo tal como o entende, por exemplo, Alberto Dines: um processo de mediação cultural em que os fatos são selecionados, comparados, interpretados e hierarquizados pelo jornalista para serem entregues à sociedade.
A essa desídia, nós, jornalistas dos últimos tempos, fomos somando fortes doses de soberba onipotência e uma overdose de auto-estima que não encontra amparo em ações tão reais quanto gostaríamos que tivessem sido. Grande parte da imprensa vangloriou-se de ter desmascarado, com sua pertinácia investigativa, as tramas escusas que sujavam os porões do governo Collor, levando ao inédito processo de impeachment. Na verdade, a lama aflorou de dentro dos dutos internos do esquema, que se romperam por ação endógena, e até que ela fosse se depositar nas portas das redações ninguém nem sequer lhe sentia o cheiro.

Não é de mordaças que a imprensa anda precisando, mas de referências. Uma renovação de referências éticas, de referências técnicas e de referências de boa formação profissional.  


   Parte dessa imprensa que se vangloriou de sua indômita bravura na luta contra a corrupção foi a mesma que, antes e durante a campanha eleitoral, mostrou uma profunda incapacidade de revelar, transmitir e analisar a já sintomaticamente precária aventura administrativa e pessoal do personagem em questão durante as suas gestões executivas na prefeitura de Maceió e no governo de Alagoas. Foi a mesma que carregou o andor do "caçador de marajás", investindo na carnavalização e potencializando no imaginário popular um projeto de estadista sem conseguir mostrar o vazio que existia por trás da máscara de papel machê.
A valentia subitamente adquirida ao tomar para si as glórias do desfecho político do processo, somada à sensação de embriaguez da liberdade provocada pelo final do vintênio de silêncio imposto, provocaram um efeito desbalanceador nos valores, de forma a incentivar um movimento pendular no sentido oposto: antes nada podíamos, agora tudo é permitido. Até mesmo a falta de acurácia. Entre a denúncia séria e o denuncismo inconsistente e inconseqüente, traçou-se um frágil risco de giz cujas fronteiras não raras vezes foram atravessadas, como se atacar a honra alheia fosse igual a soletrar um despreocupado rap numa gafieira de periferia. E está aí de novo o pêndulo, em seu inevitável movimento: está no Congresso um projeto de Lei de Imprensa no qual, ao arrepio das boas normas jurídicas e do bom senso, alguns parlamentares mais trêfegos querem pegar carona para destilar sua truculência e sua aversão à liberdade de imprensa. Há uma maioria (assim esperamos que seja) que quer o estabelecimento de relações civilizadas entre sociedade e imprensa. Mas não nos enganemos: há também quem queira a mordaça pura e simples.
Não é de mordaças que a imprensa anda precisando, mas de referências. Uma renovação de referências éticas, de referências técnicas e de referências de boa formação profissional. Ela precisa, entre outras coisas, de parar de passear de jet ski nas suaves marolas do Lago Paranoá e aportar do lado de cá do País, aquele onde se vive a boa e a má concretude da vida. Ela precisa, entre outras coisas, parar de se deslumbrar com os volteios do entediante balé do poder e debruçar-se sobre o País real, para saber primeiro entendê-lo e depois explicá-lo. Afinal, explicar é uma das boas razões que continuam justificando a existência da imprensa. Mas para explicar é preciso, obrigatoriamente e em primeiro lugar, entender.
E então vamos a outras boas razões de dúvidas: a formação profissional que as escolas dão aos futuros jornalistas é suficiente? As empresas estão preocupadas em investir na qualidade de seus profissionais? Os profissionais já formados estão interessados em se sacrificar num constante e ininterrupto processo de atualização e aprofundamento de conhecimentos, não apenas sobre o estado da arte da sua profissão, como também sobre o mundo que os cerca?
A resposta geral, permitidas as exceções de sempre, é não, não e não.
    As escolas de jornalismo não são melhores nem piores que as más escolas que formam o tenebroso pano de fundo do atual estágio de nosso processo educativo. 
Nas empresas, desde que se registra o fenômeno da ascendência da tecnoburocracia de resultados impondo seus fliperamas organizacionais sobre as atividades-fim, subjugando-as às atividades-meio, tornou-se mais importante o cilindro de uma rotativa do que um grama de inteligência. 
Entre os jornalistas, digamos, praticantes, a importância de salvaguardar cidadelas conquistadas ou de conquistar novos nichos de poder sobrepõe-se à importância da aquisição e renovação de conhecimentos. 
Quer dizer que não temos saída e estamos condenados à decadência? Não. E o fato de estar discutindo isso publicamente é a melhor prova de que os sinais vitais do organismo estão preservados. 
Como escreveu no jornal O Globo recentemente o jornalista Alberto Dines, "salutar ebulição com duplo sinal: sintoma inequívoco de alguma disfunção e, igualmente, indício de uma cura. Ou, pelo menos, vontade de curar-se". 
E é extremamente importante que esse debate se faça exatamente no momento em que está em marcha acelerada aquilo que alguns chamam de revolução digital, e que o venerando - e em alguns meios venerado - economista John Kenneth Galbraith prefere, moderadamente, considerar uma evolução, um passo à frente de revoluções que já se fizeram. 

O velho e bom jornal de papel se transformará, então, num definitivo quality paper, instrumento imprescindível de reflexão, do debate e da circulação de idéias, e da informação mais aprofundada e mais depurada? Este pode ser um caminho.  
   E Estamos na era do jornal on line? Estamos passando da era do "mass media" para a era do "my medium"? O jornal de papel tem os dias contados? O jornal de papel é mais digno que o jornal que se lê na tela? É como se ressuscitassem, com outros signos, as velhas tribos dos apocalípticos e dos integrados que Umberto Eco dissecou com tanta propriedade no tempo em que a cultura de massa procurava legitimar-se como material digno de reconhecimento nos cenáculos da chamada alta cultura.
Vejamos o que tem a dizer sobre o jornal impresso Jon Katz, crítico de mídia da revista New York: "Os jornais talvez devessem começar a reconsiderar suas tão longinquamente estabelecidas prioridades, reconhecendo que qualquer um que tenha eletricidade pode ter mais acesso a notícias frescas e mais rapidamente do que os jornais podem proporcionar; eles deveriam finalmente aceitar que não há muito de real significância que eles possam nos informar de primeira mão. Deveriam parar de esconder esse fato e começar a tirar proveito dele. O que podem fazer é explicar a notícia, analisá-la, mergulhar nos detalhes e opiniões, captar pessoas e matérias vividamente, com muito mais profundidade do que qualquer outra mídia. Eles deveriam começar a fazer isso."
O novo universo digital está under construction, e as inevitáveis interações entre tecnologia e informação estão causando, em alguns casos, perplexidade e sobressaltos, e estão liberando a adrenalina de todas as empresas de informação do mundo. Não há jornal de respeito que não esteja construindo ou pelo menos pensando em erguer seu acampamento no gigantesco canteiro de obras da Internet. Haverá grandes, gigantescas mudanças durante o processo de criação desse novo ambiente de informação. E todas as grandes mudanças têm seus profetas, alguns prometendo o Paraíso na Terra, outros a danação eterna.
Como é de hábito em todos os processos evolutivos, mortos e feridos vão ficar pelo caminho. Os jornais estarão entre as vítimas? Partindo da premissa de que a indústria da informação é aquela que capta, processa, analisa, ordena e distribui informações, e não aquela que é apenas capaz de imprimir toneladas de papel, eles não têm o que temer, desde que saibam se armar com as ferramentas estratégicas necessárias para se orientar dentro desse universo novo para poder fazer as apostas certas e os investimentos certos.
Não há por que isso deva significar, obrigatoriamente, o fim do jornal de papel. Está claro que os fluxos informativos tendem à customização cada vez mais intensa, principalmente nos mercados profissionais, que são aqueles que precisam de determinadas informações como ferramenta de trabalho. Mas o leitor médio individual já encontra em alguns endereços da rede o fish wrap, o jornal que é editado de acordo com um cardápio de temas e assuntos oferecidos pelo provedor de informação e selecionados pelo próprio usuário. Quanto maiores forem as bases de dados aos quais esses provedores estiverem conectados, mais variado e mais amplo poderá ser o espectro do jornal pessoal. Fornecedores e consumidores de informação terão uma relação cada vez mais interativa.
O velho e bom jornal de papel se transformará, então, num definitivo quality paper, instrumento imprescindível de reflexão, do debate e da circulação de idéias, e da informação mais aprofundada e mais depurada? Este pode ser um caminho. Mas poderão surgir outros percalços. A produção de um jornal é hoje uma operação industrial de alto porte, que requer pesados investimentos em maquinários cada vez mais sofisticados, em intrincados sistemas de distribuição, em estruturas pesadas e onerosas.
Haverá financiadores para tudo isso? O baixo custo do jornal para o consumidor final é, obviamente, financiado pelas receitas publicitárias. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas vêm se evadindo do meio com grande rapidez, desviadas para instrumentos mais eficazes para atingir públicos selecionados, como a tevê comercial aberta convencional, a tevê a cabo, as tevês comunitárias, as infinitas modalidades de mala direta, os emergentes meios eletrônicos. De que tamanho serão as fatias desse bolo que ficarão para os jornais tradicionais? E o que será possível fazer com esses recursos?
Chegaremos ao jornal mais caro, financiado mais pelo leitor do que pela publicidade?
Mas especular sobre isto é a parte que cabe aos profetas. Seja qual for o cenário que vier a prevalecer, seja qual for a forma pela qual os meios venham a se desenvolver, eles não prescindirão, em nenhuma de suas versões, do jornalista preparado, do jornalista consciente, do jornalista ético - em última instância, do ser humano compromissado com o destino de sua espécie, que é o que sempre deve ser um profissional em ação.

 Sandro Vaia é diretor da Agência Estado. Este texto é a íntegra da palestra proferida no dia 17 de maio sobre o tema "A Questão da Mídia: Vícios e Virtudes do Jornalismo Brasileiro", dentro do seminário "A Imprensa em Questão", promovido pelo Labjor/Unicamp em parceria com a Fiesp .
 
 

Número 10, julho-agosto de 1996
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