A notícia-biquíni do jornalismo retroativo
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A notícia-biquíni do jornalismo retroativo

Dar ou omitir notícias sem a menor idéia de sua importância tem sido um dos métodos mais errados da imprensa brasileira nos últimos tempos, para o bem e para o mal. O conjunto da mídia cometeu esse erro com o Projeto Sivam — divulgando com notas pífias a dispensa de concorrência pública para um secreto e faraônico programa militar de 1,4 bilhão de dólares, dois anos depois contestado (e encoberto). A notícia passa dando tchau e, meses depois, veículos diários e semanais correm atrás dos fatos como se fossem anuários fazendo um balanço geral. Em 22/6, o Estadão repetiu o erro ao dar com inaceitável singeleza a seguinte nota, no pé da página, na coluna Breves, com o título Conselho discute compra de material: "Brasília - O Conselho de Defesa Nacional se reuniu ontem no Palácio do Planalto para autorizar a aquisição de equipamentos para a defesa nacional. Os equipamentos serão para as Forças Armadas e para a futura Agência Brasileira de Inteligência (ABIn). No caso da Marinha, os equipamentos serão instalados nas fragatas, e no caso do Exército, o governo pretende adquirir novos armamentos. A (ABIn) (sic) também quer comprar novos instrumentos".

Parodiando o chiste do deputado Roberto Campos com a estatística, essa é a típica notícia-biquíni: mostra quase tudo, mas esconde o essencial. Diz quem, quando, onde, mas não diz o que e muito menos por quê. Um jornalismo minimamente preocupado com a qualidade das informações, internamente, e com o interesse público, como sua razão de ser, não pode publicar tamanha superficialidade. Para começar, uma decisão do obscuro Conselho de Defesa Nacional merecia maior atenção e explicação do que ele é e em quais situações se reúne. Em seguida, a suposta preocupação da mídia com a lisura dos negócios públicos deveria acender um sinal amarelo toda vez que deparasse com a expressão "dispensa de licitação", e um sinal vermelho se o negócio parecesse grande e trevoso, como sugere a compra de armamentos para os ministérios militares. "Equipamentos para a defesa nacional" podem significar muita coisa — desde carrancas para as belonaves da Marinha até helicópteros turbinados para o Exército. A falta de curiosidade sobre "novos instrumentos" de desejo da Agência Brasileira de Inteligência é comovente — pois o novo SNI precisa de equipamentos para espionagem dos cidadãos.

O caso tem o clássico perfil de operação secreta, segredo militar, etc, — argumento usado para dispensar a concorrência pública para o Sivam. Tão escandaloso quanto o governo fazer isso é a mídia elidir-se no segredo. Anote: quando as compras forem feitas e um fornecedor contrariado botar a boca no trombone, e "denúnciar" corrupção, tal como ocorreu no Sivam, a imprensa praticará o rotineiro jornalismo retroativo.

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