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Manchetes copidescam discursos do presidente Alto-contraste

Manchetes copidescam discursos do presidente

A edição de janeiro/fevereiro da revista Columbia Journalism Review, da Escola de Jornalismo de Columbia, publica uma charge em que um presidente dos Estados Unidos aparece dizendo: “Bem, 2 + 2 = 5”, e, ao lado, um intérprete traduz: “O que o presidente quis realmente dizer...”. Cá como lá, os melhores redatores dos discursos do presidente da República não estão no governo, mas em editorias de primeiras páginas de grandes jornais. Eis mais um caso. Primeiro, leia, com olhos de caçador de notícias, esse trecho do discurso de FHC na Argentina, em 8 de abril:
“Mas que não reste dúvida sobre a disposição deste governo de apurar todos os eventuais ilícitos que forem comprovados. Os banqueiros que gerenciaram mal os recursos sob sua guarda arcarão com as conseqüências de seus erros, nos termos da lei. E que não haja dúvidas sobre este ponto: irão para a cadeia se condenados pela Justiça”.

 (A fiscalização do Banco Central, o Ministério Público e a Polícia Federal estão investigando denúncias de fraudes em bancos, mas, a julgar por esse novo processo penal estatuído pelo presidente, vão apurar o que já estiver comprovado, não se sabe por quem, talvez pela confissão espontânea e documentada dos eventuais acusados. Até aqui, achava-se que os órgãos de investigação civil e criminal do Estado deveriam apurar as suspeitas, os indícios, os sinais, os vestígios de crimes, para comprová-los e denunciá-los.)

Agora leia as manchetes dos grandes jornais no dia seguinte ao discurso na Argentina:

 Jornal do Brasil: “Fernando Henrique quer prisão para banqueiro fraudador”.
Estadão: “FH promete pôr banqueiros na cadeia”.
As duas manchetes são falsas.

A Folha enrolou-se e enrolou o leitor: “FHC fala em prisão para banqueiros”, e também copidescou o discurso do presidente ao informar, no texto da primeira página, que ele “ameaçou levar à prisão os banqueiros que administrarem mal suas instituições”. Não ameaçou. Apenas ponderou que os banqueiros “arcarão com as conseqüências de seus erros, nos termos da lei”, o que necessariamente não significa - como nunca sigificou - prisão.

 A manchete certa, embora tenha alardeado a antinotícia, foi a do Globo:
“FH: banqueiros serão presos se Justiça condenar”. (E será gol se a bola entrar, e cairá água se chover, e ...) O jornalista Janio de Freitas, em sua coluna na Folha (10/4), sublinhou a distância entre o fato e a versão, e, no Globo, o líder do PTB na Câmara, Miro Teixeira (RJ), citou um personagem de Eça de Queirós no romance O primo Basílio, mestre do óbvio ululante: “O Conselheiro Acácio bem poderia ter dito isso: Os condenados serão recolhidos à prisão”.

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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