Instituto Gutenberg

Alto-contraste

 Um bom momento para reavaliação da reserva de mercado

 O deputado Cunha Bueno (PPB-SP) anunciou um projeto de lei (Folha, 31/8) para impedir a participação de fundos de pensão nas empresas de comunicação. O único caso divulgado é o da Gazeta Mercantil, que recebeu uma injeção financeira do fundo de pensão da Telebrás. A preocupação divulgada pelo deputado é a de que o governo, através dos milionários fundos que administra indiretamente nas estatais, não se torne sócio de empresas jornalísticas. À parte as preocupações do deputado, seu projeto de lei pode dar carona à revisão do monolitismo do negócio da imprensa no Brasil. É um bom momento para o Congresso rever o arcaísmo do artigo 222 da Constituição, que restringe a propriedade da empresa jornalística a brasileiros natos ou estrangeiros naturalizados há mais de dez anos (boletim n° 3, Por que a imprensa tem reserva de mercado e não paga imposto?).
O Brasil é um dos raros países do mundo que abre todos os setores da economia ao mesmo tempo, mas proíbe investimentos estrangeiros no jornalismo. A imprensa é um dos últimos grotões da reserva de mercado beneficiando-se desse artifício que tanto combate em outros setores da economia. Se é uma indústria, ainda que diferenciada pelo seu caráter de serviço público, não há, sobretudo nos argumentos favoráveis à globalização da economia, um motivo forte para se evitar investimentos estrangeiros no negócio da notícia. É evidente que não há fila de grupos estrangeiros para editar jornais ou revistas em português, mas é um anacronismo o artigo constitucional que impede grupos como o New York Times de fazer um jornal no Brasil. Só a possibilidade de competição já abriria a discussão, por exemplo, dos motivos que fazem um grande jornal custar um dólar no Brasil e 50 ou 25 centavos nos Estados Unidos. A legislação é antiquada e protetora dos impérios familiares. A Constituição determina que até mesmo pessoas jurídicas brasileiras só podem deter 30% de uma empresa jornalística, e sem direito a voto. Grandes empresas como O Globo, por serem sociedades limitadas, nem publicam balanço.
A rigor, a restrição aos investimentos estrangeiros está sendo burlada pelas televisões a cabo. A Abril associou-se a dois grupos americanos para tocar a TVA, e a Globo, cuja subsidiária Net anunciou para 30 de setembro um canal exclusivo de notícias (mais jornalístico impossível), tem participação do tentacular empresário globalizado Rupert Murdoch.

 

Toma que o erro é teu
Dois pontos para meditação dos consumidores de informação: jornais erram e atribuem o erro aos outros.
1 - Em 21/7, ao noticiar na primeira página a estréia da seleção de futebol do Brasil na Olimpíada de Atlanta, o Estadão anunciou: "Ninguém tem dúvida: o time de Zagalo deve ganhar com facilidade o jogo de estréia em Miami. A garotada olímpica, herdeira direta das benesses do quarto título mundial, vive na Flórida uma experiência inédita. Todos acreditam em sua criatividade e em seu sucesso". No dia seguinte à derrota de 1 a 0, o jornal deu o título: "Depois de prever goleada, seleção de Zagalo dá vexame contra o Japão".
2 - Numa reportagem sobre a falsificação do jornal Cidadela, dos alunos da Faculdade da Cidade, o Jornal do Brasil (27/6) reproduziu declarações do assessor da diretoria, Paulo Alonso, que disse desconhecer a origem do "ato autoritarista (sic) e do preconceito exacerbado". O advérbio sic é usado pelos jornais, entre parênteses, para deixar claro que o original está errado. Ocorre que a palavra autoritarista está registrada no Aurélio como "relativo ao, ou sectário do autoritarismo". Quem errou ao atribuir um erro à fonte foi o jornal.

Política na TV
As chacotas e as impenitentes notícias contra o horário político e tudo que diz respeito à política conduzem à lenda de que os telespectadores desligam a TV quando os candidatos aparecem. Na verdade, os índices do Ibope, quando divulgados, sugerem que o horário eleitoral tem grande audiência. Foi, por exemplo, o quarto programa mais visto da líder Rede Globo, na Grande São Paulo, na semana de 5 a 11 de agosto: alcançou 38 pontos ou 3 milhões de telespectadores. Mais vistos que o vilipendiado horário político só mesmo a novela O rei do gado (52), a Terça Nobre e o Jornal Nacional (40 pontos cada).
O índice de 38 pontos dos candidatos foi superior à soma dos cinco programas de maior audiência das redes Bandeirantes (um total de 24 pontos), CNT/Gazeta (15) e Manchete (24) e bateu até mesmo o pico do Programa Silvio Santos (22 pontos). Os 38 pontos do horário político eqüivaleram naquela semana à atenção dada ao fascinante Globo Repórter.
É de se notar que a medição que vale para o horário político vale para todos os programas: o Ibope diz em que canal a televisão da casa está ligada, e não tem condições de afirmar, evidentemente, se as pessoas estão vendo o programa.

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Número 10, julho-agosto de 1996
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