3x1 - Luiz Maklouf Instituto Gutenberg

    3x1 - Luiz Maklouf


    O autor de Cobras Criadas diz
    que o jornalismo melhorou

    O repórter Luiz Maklouf Carvalho, autor de Cobras Criadas - David Nasser e O Cruzeiro(Editora Senac, 600 págs., R$ 45,00)responde a três perguntas sobre o jornalismo brasileiro no período coberto pelo livro.

    Há um grande saudosismo na praça, mas a leitura de livros como Cobras Criadas demonstra que a imprensa brasileira de hoje é melhor que a de qualquer outra fase do passado?
    Acho que é melhor, sob qualquer aspecto, sem prejuízo do muito que ainda falta melhorar. O diferencial, a meu ver, é uma cobrança maior da opinião pública.

    Esse "jornalismo inventivo" que predominava no Cruzeiro era a regra na imprensa da época de ouro de David Nasser?
    Acho que houve jornais e jornalistas que no mesmo período praticaram um jornalismo mais sério e mais comprometido com a verdade. O próprio O Cruzeiro viveu uma luta interna memorável - com um grupo expressivo contestando a linha Nasser. O Diário Carioca, experiência a que também me refiro, deu boa contribuição na busca de uma maior objetividade.

    O que as empresas de comunicação e os jornalistas de hoje têm a aprender com Cobras Criadas?
    Acho que o livro detalha uma época muito comentada mas pouco conhecida da imprensa brasileira. O que pretendi, partindo do perfil de Nasser, foi mostrar O Cruzeiro "em funcionamento", com seus diversos personagens e principais repórteres, em todas as suas fases. A documentação contida nos arquivos do Nasser permitiu, por exemplo, um detalhamento maior dos desmandos que levaram ao fechamento da revista e à implosão, naquele momento, dos Diários Associados.
    Além dos arquivos do Nasser - um tesouro -, e de seus 17 livros, pesquisei a coleção da revista e de outras publicações, e fiz 103 entrevistas - 40 delas com personagens de O Cruzeiro e dos Diários Associados, entre eles Millôr Fernandes, Flávio Damm, Armando Nogueira, Hélio Fernandes, Mario de Moraes, Eugênio Silva, Luiz Carlos Barreto, José Alberto Gueiros e Ziraldo Alves Pinto. Ouvi familiares - a começar da víuva - amigos, colegas e empregados de Nasser. Do período que ele trabalhou em Manchete, a última fase, tive bons depoimentos de Carlos Heitor Cony e Zevi Ghivelder. Acho que os leitores terão surpresas sobre o relacionamento profissional entre Nasser e Adolpho Bloch, por exemplo.
    Procurei, mostrar, também, como Nasser usou o jornalismo em proveito próprio, com grande desenvoltura no chamado tráfico de influência. O livro conta a participação dele no golpe de 64 e sua relação com o Esquadrão da Morte - do qual foi presidente de honra. Conta, também, a relação entre Nasser e ministros da ditadura militar - como Delfim Neto e Mário Andreazza. Ele mantinha ligações estreitas com empreiteiros e banqueiros - e isso também está lá, como está o Nasser fazendeiro e o Nasser letrista da música popular brasileira, autor, entre muitas outras, de "Canta Brasil", 'Nega do cabelo duro" e "Camisola do Dia". Tentei mostrá-lo com todas as facetas de um personagem rico e complexo, evitando, ao máximo, juízos de valor.

    05/11/2001

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